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sábado, 30 de maio de 2015

O roubo - A queda de Falligan

Sten acordou algum tempo depois, sentindo o pulsar por todo o corpo, a cabeça ainda anuviada das alucinações. A entrada da caverna mostrava o céu pingado de estrelas, A lua se escondia no véu da noite. No outro lado da caverna na escuridão profunda Liof estava desmaiado. O jovem correu até ele, viu o rosto do homem banhado em lágrimas, o nariz sangrando e estava febril. Lembrou-se do ferimento abaixo de sua costela, seus olhos confusos encontraram sua pele intacta. Pegou seu mestre desacordado e o carregou por um caminho contornando a aldeia e viu a árvore vermelha, sentia-se em casa. Seus passos eram precisos, sentia seus instintos se afiarem como se seu corpo necessitasse daquele local.

Chegou na clareira, subiu a árvore com Liof nos ombros, desacordado. O abrigo estava intacto, os galhos cortados amarrados com cipós criavam o chão do abrigo, as paredes e teto. Os olhos de Sten se acostumaram com as trevas da noite. Desceu e correu até a outra saída da floresta, onde havia uma cachoeira. Achou a Limpa-corpo, colheu a planta. Era a cura necessária para venenos, doenças e mais alguns estados de mal estar, mas não para ferimentos graves. Voltou. Fez o líquido da planta e fez com que seu mestre o engolisse, sentiu a febre abaixar automaticamente. Se sentou e ficou olhando para o breu do céu.

A cabeça do rapaz pela primeira vez estava perdida de verdade, sem conselhos do seu mestre, com orgulho o suficiente para não voltar a Falligan de mãos vazias e sem a menor pista da ladina. Fechou os olhos tentando resolver o quebra-cabeça mental: O que fazer? Levantou-se, sentiu o movimento da floresta. Escutava as raízes e cipós se projetando em busca de alguma coisa. Sangue! Pensou ele. Ele pulou do abrigo, fez o caminho entre os galhos, sentindo como duas estações mudaram tanto sua disposição física. Suas mãos reclamavam, pouco mas reclamavam, ele acelerou a corrida. Liberdade, a sensação de dominar plenamente cada um de seus movimentos, seus pés sentiam o chãos, sentia a vida da floresta-sem-luz, sentiam que as forças dela indicavam para a aldeia. Já se movia com a mesma velocidade de um lobo-olho-azul. Escutou o ferro ressoando, gritos, fogo. Um desespero tomou conta de Sten. Já estava perto da muralha da aldeia, viu uma das janelas da sala da guarda quebrada. Entendeu finalmente como a ladra entrara na fortificação a alguns dias, conseguiu escalar até a janela utilizando-se das pedras mal colocadas. Entrou na sala da guarda, o brilho do fogo era intenso na porta, enxergou as casas em chamas. Correu em direção a casa de Marian. Desceu uma escada de madeira que dava acessoa a salas da muralha. Chegando na via principal, viu o grande portão arrebentado. Os atacantes da cidade pareciam fantasmas, pois só se via os rastros. Se esgueirou pelas ruelas paralelas e a rua principal para chegar na praça, aonde estava a taverna de Uan e a casa de Marian. O peito queimava de dor, a corrida e a escalada deixaram sua marca em seu corpo. Procurou sua adaga na cintura, não encontrou nada. Procurou por alguma arma visível e não via nada além de madeira quebrada, as chamas do fogo e ferro partido. Chegando na praça sua respiração parou, ele não acreditava no que via.

Cerca de vinte soldados escarlates cercavam um grupo de pessoas, Ele viu uma trilha de corpos deixados até aquele cenário, muitos de moradores da vila e poucos de cavaleiros. Lanças em riste, apontada para aqueles que se propunham defender as crianças e idosos que estavam encostados na entrada da taverna. Um semicírculo de defesa havia sido formado, os guardas estavam distribuindo as pessoas dispostas em linhas criando camadas para a defesa e a primeira pessoa em pé com a lâmina de uma espada apontada para a lança do homem de vermelho mais próximo era Loreah, seu braço direito parecia pendurado ao corpo, um rosto escorrendo suor e os olhos firmes. Sten via que a tensão era grande, não entendia porque a batalha ainda não tinha iniciado. Os moradores pareciam encurralados, ele avistou um machado de uma mão caído. Se agachou, aproximou-se e o pegou. Escutou o chacoalhar de uma armadura pesada, um grito de mulher entredentes. O cavaleiro com o elmo cor de sangue e com adornos únicos, carregava Marian pela cintura e pelos cabelos. Os olhos do rapaz se inflamaram, ele a ajoelhou de frente para a população colocou a mão na espada, Sten avançava ganhando terreno. A população o viu e o olhar de uma das senhoras o denunciou, o soldado com o elmo largou Marian e se concentrou no novo oponente.

A espada foi retirada da bainha com um movimento de ataque que surpreendeu o rapaz, ele se abaixou, o cavaleiro segurou também com a outra mão o cabo da espada para mudar a trajetória do golpe que agora vinha em cheio, sem chance de esquiva. O machado encontrou a lâmina prendendo-a entre o cabo e sua parte superior encurvada, Sten fez um arco com o braço para sua esquerda abrindo a guarda do inimigo. Loreah gritou e todos da primeira linha de defesa atacaram os soldados mais próximos, O rapaz de cabelos negros desferiu um golpe de cima para baixo acertando em cheio o peitoral da armadura do oponente, desequilibrado o cavaleiro que segurou firme a espada, apoiou o pé um pouco mais atrás e investiu. A estocada fez um corte na lateral do corpo do rapaz, um pouco acima da cintura. Loreah desviou do ataque da lança, pulou e com velocidade desferiu um golpe com sua espada curta no pescoço do cavaleiro mais próximo. Sten não sentiu o corte, seu corpo estava quente e adrenalina da batalha o deixava concentrado. Ele avançou, o cavaleiro golpeou, sua espada vinha em um corte veloz de cima pra baixo. O selvagem sem armadura moveu-se velozmente, desviou da lâmina e com velocidade golpeou a parte posterior do joelho do cavaleiro, o machado cortou a perna até encontrar o metal da parte anterior da perna. O cavaleiro caiu. Sten viu a armadura deformando, algo dentro dele fervilhou. O soldado não gritou ou se quer sentiu, movimentava buscando em vão alguma forma de ataque. O machado partiu a parte superior do elmo. As mãos seguraram com mais raiva o machado e golpearam novamente. Um líquido negro começou a escorrer do elmo e antes que encontrasse o chão ele evaporou. A abertura no elmo mostrava o rosto do homem, por baixo da armadura estava deformado. Um rasto negro que consumiam dos olhos para o resto da face. Loreah acabara de cortar a garganta do último soldado vermelho e a aldeia se encontrava livre dos vinte cavaleiros que atacaram porém os trinta e cinco cavaleiros tinham reduzido as tropas da cidade a seis pessoas.

O esforço da execução do cavaleiro fazia o ar entrar queimando em seus pulmões, os seus olhos encontraram os olhos da ladina, ele avançou em direção da ladra. Marian parou ele no caminho.
—Nem pense em atacá-la!
—Foi ela roubou a aldeia! Foi ela que causou esse ferimento em seu ombro! Ela quase me matou em uma caverna!
Marian suspirou, olhou para a mulher com as vestes rasgadas, os cortes em seu corpo, o braço quebrado e os olhos frios. Retornou a fitar o homem a sua frente, ele exalava a raiva. Ela percebeu que ser agressiva só iria piora a situação então asserenou.
—Você pode falar o que for, se não fosse ela aqui só haveria corpos no chão. Os erros dela não são grandes o suficiente para valer mais do que as vidas salvas. Ele bufou, aproximou-se da mulher de cabelos dourados.
—Eu queria entender o por que?
Ela não respondeu. Virou as costas e foi em direção a um barril com aguá, as chamas das casas que pegavam fogo na entrada da aldeia brilhavam no reflexo até ela desfazê-lo pegando um pouco d'água e jogando no rosto. Aproximou-se da líder da aldeia.
—Essa foi a primeira tropa. Uma tropa de reconhecimento, ele vem apenas pra fazer o estrago inicial. Um número bastante pequeno pra quantidade que eles podem mandar ainda hoje. Temos que sair daqui!
A mulher dos olhos castanhos ponderou, quis negar a estratégia.
—Você não entende, eles não vão parar até matar todos aqui.
—Eu não entendo porque eles estão nos atacando.
—Eles nunca explicam. Apenas atacam.

Marian começou a reunir os sobreviventes. Contou para todos a situação e como única estrada daria no posto dos atacantes. Decidiram ir então para dentro da floresta-sem-luz. Muitos ficaram aterrorizados com a ideia e decidiram buscar seguir sozinhos.

—Os feridos, mesmo aqueles que tiverem um pequeno machucado, me sigam. Teremos que dar a volta pelo paredão de pedra cinzenta. Marian, você segue com eles pela floresta até a clareira. Nos reunimos lá e decidiremos para onde ir.
A mulher assentiu e gritou para o seu povo.

—Me escutem, peguem tudo que puderem carregar de comida e água e vamos embora. Vamos fazer a nossa casa em outro lugar.

Alguns partiram em com Sten em direção ao pântano, outros seguiram Marian para dentro da floresta e alguns poucos tentariam a sorte na estrada.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O roubo - Loreah

Loreah era uma jovem de cabelos dourados, olhos azuis, sua sobrancelha fazia uma curva incomum sempre a deixando com a expressão de surpresa e olhando assim superficialmente você seria facilmente ludibriado. Quando ela completou sua décima segunda primavera, sua aldeia foi atacada pelos cavaleiros escarlates, ela e sua mãe conseguiram escapar, mas não sem sofrer danos, sua mãe foi ferida gravemente na perna e ela sofreu um corte profundo em seu ombro. A mata foi abrigo durante duas primaveras, a ferida na perna da mãe ficou mal curada causando grandes problemas na locomoção delas e depois de duas primaveras trouxe a dor da perda para Loreah. Ela foi embora da floresta onde enterrara sua mãe carregando a certeza de sobreviveria como seu pai lhe ensinou, encontrou uma caverna em um paredão e daquele paredão conseguia ver Falligan.

Ela entrou em sua caverna, com a roupa do guarda que matara. Não havia outra luz a não ser a do sol que penetrava pela entrada da caverna, iluminava a perna de um homem que estava sentado.
– Sou grata pela informação da troca da guarda, foi bem útil. Tem ficado cada vez mais difícil surrupiar cristais dos próprios guardas escarlates, vou ter que mudar minha tática.
Um sorriso brotou no canto da boca da mulher. O homem esticou o rosto, era Ruflo o antigo líder da aldeia, fora expulso a duas estações. A luz enfim encontrou as correntes que prendiam as mãos, pescoço e pé.
– Agora então você poderia me libertar. - o tom de esperança em sua voz fez o sorriso dela abrir um pouco mais
– Tu terias me libertado se eu estivesse desprevenida aquele dia na floresta?
– Aquilo foi uma idiotice minha, eu estava aborrecido com minha expulsão. Sem recurso, sem moradia, encontrar uma mulher- as mãos dela seguraram a adaga com força - com uma bolsa de cristais a mostra e assando um porco-do-mato era praticamente um golpe de sorte.
No terminar da frase, ela encostou a ponta da faca no pescoço do homem que arregalou os olhos e sentiu a pele rompendo superficialmente, ele fez uma careta. Loreah parou de pressionar quando um risco vermelho derramou uma gota.
– Espero que seja mais cauteloso com suas palavras. Uma coisa que aprendi com minha amada mãe, nunca subestime alguém que caçou um porco-do-mato.
Uma lágrima brotou nos olhos do homem, ele suplicou.
– Por favor, você já conseguiu o que queria de mim. Liberte-me e nunca mais ouvirá falar de mim.
– Há outras formas de nunca mais ouvir sobre você.
Ele chorou, em pouco mais de alguns segundos de pranto ele viu algo seguir velozmente na direção do seu rosto, que já estava com algumas marcas roxas e cortes, com um soco ela o fez silenciar. Ela odiava ver um homem chorando, mesmo que fosse um tão asqueroso como aquele.

Passou-se dois dias e ela estava esperando o quinto para ir trocar os cristais por um pouco de comida, alguns metais e roupas. Quanto a Ruflo nesses dois dias ela deu um jeito de soltá-lo sangrando depois da árvore vermelha, ele implorou, mas sobre a mira do arco dela ele foi obrigado a correr até ser engolido pela vegetação. Ela voltou aliviada para aquilo que chamava de casa.
Estava pensando como conseguiria carregar seus mantimentos, talvez precisa-se de uma roupa mais surrada, feita de saco de linho e um capuz pra cobrir o rosto. Bom que os cavaleiros escarlates não se preocupavam com a aparência das pessoas, só se importavam com os cristais vermelhos, pensou ela. Escutou então um farfalhar nas matas abaixo de sua caverna.

Pegou seu arco, o punhal guardou em um movimento fluido em sua cintura e cobriu os cabelos com o capuz cor de lama, ia saindo da caverna quando seu sentido apitou, estava esquecendo os cristais. Pegou os cristais, se escondeu atrás de uma curva feita na rocha pelo tempo, observando com apenas um olho.

Dois homens alcançaram a entrada de sua caverna, um rapaz de tez morena e um velho de cabelos brancos.

“ Já é a segunda vez que aquele homem pode atrapalhar minha vida, eu também gostaria muito de atacar os cavaleiros escarlates, mas eu prefiro sobreviver. Só o deixei vivo porque simpatizei com a vontade dele, mais um erro pra minha conta “

entraram na caverna para vasculhar, escondeu a bolsa com os cristais, encostou-se ao paredão, armou a flecha no arco e segurou mais duas flechas na mão e foi se aproximando da entrada da caverna. A voz de Liof começara a ficar audível
– Essa deveria ser a toca do ladrão, ladrãozinho.

Loreah odiava a palavra ladrão/ladra preferia ladino/ladina, gatuna ou qualquer outra com um pouco mais de classe, ela já estava na beira do da caverna quando a conversa dos dois se extinguiu. O milésimo de segundo que ela levou pra decidir se apenas apareceria um pouco já atirando, ou se saltaria e acertaria um dos dois foi o erro, uma mão magra mas forte a segurou pela garganta a outra pela roupa na cintura e foi arremessada pra dentro da caverna, fazendo seu capuz e arco caírem.
– Uma mulher!? -exclamou Sten.– Por isso a confusão criada na minha cabeça– O que falais? Por que me acusam de ser uma gatuna?- Sentiu um alivio pronunciando a ultima palavra.– É verdade, sem provas, sem acusação. Perdoe-me senhorita, o que fazes morando em uma caverna?
Ela se ajeitou, tornou a colocar o capuz na cabeça, O rapaz de cabelos pretos não relaxou como Liof. Dava pra ver a raiva estampada nos seus olhos. Ele tinha certeza de que era ela, seus instintos diziam isso claramente.
– O agradável local onde morei foi destruído pelos cavaleiros escarlates. Passei a vagar então procurando formas de sobreviver e essa caverna foi um alento em meio a tanta desventura.
A fala dela era como um abraço, desses que esquenta o coração e te deixa feliz, o velho de cabelos grisalhos foi persuadido com facilidade, a forma de falar dela só deixou Sten mais tenso, ele serrou os punhos e rilhou os dentes.
“ Não acredito que um deles não esteja caindo na minha lábia. Tenho que fazer alguma coisa ou posso acabar prisioneira ou morta”
– ...Você gostaria de ir com a gente para a aldeia aqui perto, todos lá são bem receptivo.– Não, prefiro viver sozinha. Agora por favor, deixem minha casa.
Ela estendeu a mão a Liof, ele segurou e fez uma mesura encostando o dorso da mão dela em sua testa, isso era um sinal de respeito. Ela fez um movimento rápido, segurou no pescoço do homem velho, chutou o rapaz no rosto, Sten rolou e pegou o arco que ela havia deixado cair quando foi arremessada no chão. Ela protegia seu corpo com o velho, que estava muito encurvado já que ela era mais baixa que ele. Ela colocou a mão na cintura caçando a adaga e não encontrou
– Você esta procurando isso?- Liof mostrou a adaga que reluziu no pouco de luz que havia na caverna.
Ela se assustou, os olhos dela se moveram rapidamente de um lado para o outro então deu uma rasteira nele, Sten deixou a flecha voar. Ele não tinha prática com o arco e flecha, a flecha acertou na parede lateral da caverna ela arrancou a adaga da mão de Liof e pulou pra cima do rapaz. Ela era pequena, frágil, mas bem resolvida quanto a suas atitudes, ela tinha na mente que não cometeria o mesmo erro duas vezes, deixar aquele homem vivo. Ele segurou com força o braço dela, ela deixou o corpo cair sobre o braço, ele viu que o seu braço cederia. Lembrou-se do lobo-olho-azul e por alguns segundos observou com calma a situação, ele aproveitou o peso e a empurrou para o lado, quando ele se levantou ela já estava preparada novamente para o ataque, Liof estava observando sentado com as pernas cruzadas. Ela avançou, a adaga assobiou no ar quando tentou fazer um corte no rosto do rapaz, ele deu uma joelhada no braço dela a mão firme não deixou a adaga escapar, ela acertou um soco barulhento com a outra mão no tronco dele. Ele sentiu a dor e reagiu direcionando o punho ao rosto da ladina, ela aproveitou sua estatura passou por de baixo do braço, fazendo o ataque dele falhar. Cravou a adaga nas costas, então observou Liof se levantando. Ela pegou o arco e uma flecha perto da entrada e atirou contra o homem dos cabelos grisalhos.

“Não preciso mais ficar aqui. Vou arrumar outro lugar e trocar os cristais”

Ela saiu, sumindo na noite que começava. Liof segurava a flecha disparada na mão, andou até Sten, tirou a adaga que foi fincada embaixo da costela. A dor inundou o corpo do rapaz de cabelos pretos, a visão começou a embaçar.
– Mestre... que bom te ver, onde estamos?
Liof pegou a faca e cheirou, havia algo além do sangue.
– Ela deve ter ido a floresta-sem-luz e molhado a adaga em um salgueiro bravos. sua seiva causa visões e é venenosa, muito venenosa.- Pensou ele em voz alta - Pra achar a limpa-corpo, teria que correr até a floresta, não temos tempo - repetiu essas três palavras muitas vezes, andou de um lado para o outro batendo as mãos na cabeça então chorou. Respirou fundo, para se acalmar. O rapaz começou a ter espasmos, a se contorcer. Liof pegou um pouco de água em um cantil jogou no rosto e então encostou sua mão na ferida causada pela faca. O calor emanou de suas mãos, adentrou a ferida e queimou. Sten gritou, sentia como se suas veias estivessem pegando fogo. Uma luz vermelha emanou da ferida que se fechava, então ele estava curado.
– Vai começar tudo de novo. - disse chorando o velho.

Dentro do castelo branco, no alto da montanha a raiva do seu dono cresceu. Ele foi surpreendido novamente e isso para ele era terrivelmente incomodo, ele não era de cometer erros. Nos postos dos soldados de armaduras vermelhas todos rilharam os dentes e fecharam os punhos. Os gigantes teriam que andar sobre Nyrra mais uma vez.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O roubo - O soldado Ambíguo e os cristais vermelhos

-Dizem que o sentinela é capaz de ver do outro lado do mundo, que escuta seu nome a quilômetros e que por isso seu nome foi esquecido e agora é chamado simplesmente de O sentinela.
Terminava de falar Arl o homem mais velho da cidade.

Sten estava com seus olhos vidrados no homem, escutara poucas histórias da boca de Liof e talvez por isso começou a acreditar em tudo que o velho havia contado. Estavam todos sentados na antiga taberna de Uan, havia crianças sentadas no chão em volta do ancião. Aquela era a noite das lendas, onde o povo se dispunha a sentar e recontar as antigas aventuras, desde a saída de Ruflo da cidade, Marian tinha voltado com essa tradição e todos gostavam de escutar, ela olhava tudo com os olhos brilhantes como se transbordasse lembranças.

-Marian, como esse sentinela pode ter tanto poder assim?
-Você nunca tinha escutado essas histórias?
-Não mas devem ser de grande valia, Liof sempre me ensinava muitas coisas sem precisar falar e quando falava me dava coisas para pensar, algumas eu penso até hoje.
-Essas histórias, são – ela pensou muito antes de continuar – não são completamente verdadeiras, elas tem acréscimos que são dados por pessoas que provavelmente não conheciam muito do que falavam. Como a história que os garotos
criaram sobre você, falando que você é filho de lobos-olhos-negros.
– Eu não sou filho de lobos-olhos-negro, onde tirariam essa ideia? Nem tenho tanto pelo e muito menos os olhos negros.
– A rapidez com que lutou com os guardas da cidade,
para eles é impossível que você fosse uma pessoa nascida de gente, então eles assimilaram você com o animal mais rápido que eles já viram.
–
Eles nunca viram um leopardo-patabranca. - ele abriu um sorriso bem sincero – se bem que ser filho de leopardo-patabranca eu gostaria.
– Meu pai me falava, que das lendas podia se tirar grandes informações. Como essa sobre o sentinela, é fato que os soldados escarlates são insensíveis. Mas não acredito que haja um sentinela com essa capacidade de retirar a mente de um homem do corpo, isso é história pra assustar.
– Quem manda nesses soldados?
– Meu pai falava de homens gigantes que tinham tanta força que todos juravam lealdade só por verem a imponência deles. Eu pessoalmente acredito que seja um homem que resolveu não deixar com que as aldeias se comuniquem e controla o suprimento e produção delas.
– Os soldados escarlates pegam suprimentos da aldeia
– Sim, a cada mudança de estação eles vêm e trocam nossas mercadorias por cristais vermelhos. Que são utilizados nos postos deles para pegarmos outras coisas necessárias foi assim que conseguimos as pedras reforçadas das muralha
s e os equipamentos dos guardas e aqueles adornos da casa do Ruflo que venderei na próxima coleta.
– E as outras aldeias acham isso justo?
– Sabemos que elas existem, ma
s somos proibidos de falar com elas, nem viajar é permitido. Para passar para qualquer aldeia sem passar perto de um posto teria que se aventurar pelas matas ou montanhas. A única coisa que sabemos é que servimos ao dono do castelo branco.
– Isso não soa muito bom, meu Mestre disse que tudo tem que girar em torno de um acordo comum entre povoados.
Marian deu de ombros e seguiu para seu aposento com um pensamento incômodo.
Havia se passadio muitos dias desde que Liof deixara Sten ali, ele aprendeu a se comunicar mais. Aprendia bastante sobre como era viver com mais pessoas, não existiam desafios muito grandes. Ele era o guarda particular de Marian. Ele não utilizava cota de malha, nem elmos de ferro, muito menos lanças de madeira com metal, utilizava sua adaga e um velho machado que causava dores no coração daquela que ele protegia. O dia das pedras vermelhas chegou, as mercadorias estavam separadas em frente ao portão principal, Marian estava contando e recontando tudo. Um bater à porta. Sten subiu na casa, observando a movimentação de todos. Ao abrir da porta um estandarte com o símbolo dos cavaleiros escarlates surgiu. A mente do rapaz se enveredou por caminhos a muito não lembrados, aquele símbolo, aquela armadura. O ódio impregnou seu espírito e como um animal pulou para o telhado mais próximo dos soldados para o ataque, ele não pensou o que isso poderia acarretar para a aldeia, não pensou nas pessoas que morreriam ali caso ele atacasse, não pensava em nada. Ele ansiava pela morte de todos aqueles soldados portadores daquele simbolo. Soou na sua cabeça algo um pouco mais claro:
“
Você não reconhece minha armadura e o símbolo nela”.
Se agachou para atacar um único cavaleiro, o com o elmo vermelho sangue. Um borrão surgiu em sua visão, ele escorregou do telhado de uma casa para a parte mais próxima do muro, fazendo barulho. Mas não tão alto para perturbar muita gente, ficou escorado entre o muro e o beco formando um “v” com o corpo.

O sol já se encontrava em comunhão com o horizonte, apresentando tons de alaranjado no céu. A dor na cabeça o acordara, sentia como se uma cobra-d’água o tivesse jogado contra aquele muro e arrastado ele no chão. As costas reclamavam muito, os músculos da coxa também, ele passou quase meio dia ali. Virou o corpo e saiu ainda zonzo do beco feito da casa do guarda Riuna e o muro. Foi até a casa de Marian, onde a encontrou segurando o ombro enfaixado e chorando. Vendo Sten entra os olhos dela ganharam uma vivacidade incomum.
– AONDE VOCÊ ESTAVA?
– Fui acertado por algo e desmaiei.
– Estou cercada de soldados inúteis e a minha única certeza de proteção era você, agora não posso confiar nisso mais. - a voz dela passou de raiva pra um choro murmurado de revolta, Sten fez o máximo para não ser afetado por aquelas ofensas e pela primeira vez viu a beleza daquela mulher. Um péssimo momento pra enxergar isso.
– Marian me conte o que aconteceu.
– SAIA DAQUI!

O Selvagem saiu dali meio aturdido, pensando em como os olhos dela ganhavam vida ao estar brava, pensando em sua voz aumentando de intensidade conforme a veias de seu pescoço se mostravam. Foi como um novo encontro, como se até ali ele nunca tivera vislumbrado um terço do que era aquela mulher, essa nova forma de ver veio junto com uma tristeza inconfundível por ter ocorrido alguma coisa com Marian e ele não ter ajudado, pensou que poderia estar desacostumado com o sentido de vigília, já que ali não necessitava, se perguntou também se não tinha ficado cego de raiva. A raiva o inflou.
– Você está ficando mole garoto
O rapaz viu sua mente asserenar mais rápido que o vento apagando o pavio de uma vela em noite de vendaval.
– Mestre! Que alegria te ver!
– Alegria! Alegria! Alegria!
Cantou Liof.
– Sinto falta de suas lições. - falou o rapaz um pouco cabisbaixo.
– Lições? Não estou lembrado de nenhuma. – Disse extremamente confuso.
O garoto fez um aceno com a cabeça como se fizesse a mente pegar no tranco, lembrando-se de como era tratar com Liof
– Sobreviver.
– Sobreviva meu garoto, se bem que hoje sua vida poderia ter sido tirada de você.
– Eu sei, estava cego pela raiva.
– Raiva, isso não é útil nem pra proteção. Achei que havia te ensinado isso há muito tempo quando você queria se vingar de uma Lobo-olho-azul.
– Eu me lembro disso, sei que você falou pra aprender a entender ela. Eu não fazia ideia que estava chegando perto dos cinco filhotes dela quando fui catar amoras na árvore no alto da cachoeira.
– A raiva é o apagar do dia sem estrelas para o pensamento. – Deu um riso estranho – Eu não faço ideia de onde li isso.
O garoto viu uma lucidez estranha em seu mestre, Lembrou-se então do foco de sua pergunta.
– O que faz por aqui?
– Estou a três dias pensando se entrava ou se gritava do lado de fora. Quando os cavaleiros escarlates adentraram a aldeia eu me escondi. Quando foram embora, um dos guardas atacou Marian e pegou a bolsa com cristais vermelhos dela, ela segurou o braço do guarda. O elmo do guarda caiu e o guarda a atacou com a faca. Nisso eu já estava perto pra desviar o golpe. Dele ou seria dela… Estou confuso. Desviei o golpe e a faca rasgou o braço de Marian enquanto isso ele, ela!? Correu. E sumiu pelo portão principal. Eu ia corre até ele, mas sem a raiva da agressão consegui entender que atender a garota era mais urgente. Ela ia perder muito sangue até alguém conseguisse saber como costurava aquele ferimento.
A raiva transformou o rosto de Sten em uma careta.
– Já te disse que careta só funciona com rã-amarela.
– Você me viu antes do acontecido?
– Não enxerguei nada dentro dos muros até o ataque da soldada ou seria soldado?
– Então como sabe que eu fui acertado? – ele pensou muito rápido na pergunta – Já sei, você sabe que eu não deixaria que atacassem Marian, então só havia duas opções.
– Morte ou sorte.
– Sorte?
– Sim, se a soldada ou soldado não te matou porque você estava com sorte. O golpe com a faca foi preciso, pensou até na possibilidade de cometer um erro no ataque, mas o erro não impediria do dano ser alto.
– Temos que Descobrir quem foi. Marian não esta brava a toa, deverá fazer falta esse recurso.
– Sim. Não se preocupe tanto, só existem dois lugares para ele fugir. O resto daria morte na certa.
– Amanhã vou caçar esse infeliz!
– Já te falei que raiva não serve nem pra defender. Não servirá para caçar.