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sábado, 22 de agosto de 2015

A morada dos Guardiões - Um começo e Anilea

Liof e Sten terminaram de escalar o paredão da cachoeira assim que os primeiros raios de sol brotaram, encontraram Loreah atenta a cada movimento. Reconhecendo os dois ela abaixou sua adaga.
—Agradável e oportuno é a presença de vocês pois dormimos aqui essa noite por persistência de Marian. Eu teria enveredado pela floresta e encontraria uma forma melhor de nos alimentar do que com o resto dos grãos e frutos.

Liof olhou curioso, algo nos cabelos loiros e nas sobrancelhas arqueadas da ladina o entretinham. Era como uma comichão na mente, que faz você querer escutar de novo uma charada ou desafio.
—Ainda bem que não fez isso, essa floresta é protegida. Por um dos seres mais bonitos que pude ver de perto e o mais perigoso — pelo menos era assim que ele se lembrava, algo em sua cabeça o fazia esquecer dois encontros, duas peças que faltavam em toda aquela história: o monstro vermelho e o senhor do castelo branco — existe um abrigo capaz de suporta dez vezes o número de pessoas que temos aqui mas precisamos da aprovação do protetor.

—O que estamos fazendo aqui então? Vamos logo.

Sten avançou pelo acampamento, acampamento seria um elogio para o que ele via, algumas tendas baixas e furadas, muitos dos panos servindo apenas de forro para o chão. Seus olhos então encontraram quem ele queria encontrar, Marian conversava com uma menina pequenina. Ele não escutava voz da moça a um tempo e ela pareceu a melodia mais limpa e pura que escutara. O frio aumentou dentro de sua barriga. Quando os olhos dela encontram-se com os deles foi como uma faísca vindo do atrito entre duas pedras, algo bem rudimentar e como a primeira tentativa de acender uma fogueira a chama se desfez no ar. O sorriso permaneceu.
—Achei que você não viria mais. - o tom brincalhão pegou o rapaz de surpresa.
—Eu te falei que era só esperar.- ele não soube manter o ar tão leve
—Porque vocês não chegaram com a Loreah?
—Ela não te disse?
—Não, ela evita ao máximo falar de você.
—Estava ajudando o meu mestre, e juntamos alguns recursos—ele deu um tapa leve na bolsa feita de folhas e cipós
—O que tem ai?
—Algumas folhas, sementes e seiva. Coisas que o meu mestre pediu para nos ajudar com a nossa caminhada. Ele me disse que dentro dessa floresta, existe o velho abrigo dos Guardiões.
Marian se animou, sempre escutou de seu pai que os guardiões eram os maiores guerreiros de todas as aldeias e que ao final das guerras os soldados escarlates deram terras para algum deles.
—O que estamos esperando? — disse ela assombra da culpa havia deixado seus ombros.
Ele queria prolongar um pouco mais a conversa mas não arranjou o como e foi sucinto.
—Então vamos!
Enquanto Sten foi pedir pra Liof guiar a todos, Marian avisava a todas as pessoas o que eles fariam. Rapidamente todos se reuniram na entrada da floresta e o Guardião pediu para que todos dessem as mãos que ele guiaria e que independente do que vissem não soltassem as mãos ou corressem. Ele entrou encontrando a escuridão e as luzes das raízes e folhas brilhando mais fracas do que ele se lembrava, Sten era o segundo na fila olhava impressionado pela beleza dos desenhos das árvores. Eles andavam com calma em pouco tempo estavam na entrada do local. O sol adentrava a planície por frestas específicas fazendo ele se espargir e iluminar o necessário para que todos enxergassem o local e soubessem que era dia. Havia escudos, armas e armaduras. Terminaram de entrar a se abrigarem, o local era aquecido, a abóboda feita de raízes e galhos criava contraste interessante com o céu nas frestas. Liof se conservava na entrada, vendo todos esperançosos com a nova casa. Ele se lembrou do outro momento. A última vez que tinha visto aquele local. Um frio subiu por sua espinha, ele lembrou que existia um perigo maior. Lembrou-se da promessa.
—Liberdade é tudo que queremos – ele escutou sua voz de eras atrás dizendo isso.
—O que você está falando Liof – Sten surpreendeu o homem agora não tão magro.
—Nada — seu pensamento vagou por segundos em silêncio e fisgou o que queria—Venha comigo.

Eles andaram, os pés de Liof sabiam aonde ir, eles voltaram para a luz fraca das raízes e árvores. Seguiram por muito tempo ou pouco nenhum dos dois saberia, a escuridão curiosamente deixa o tempo indistinguível. Chegaram à abertura que daria para as costas do esqueleto, um dos vales antigos. Uma pedra de proporções enormes bloqueava a única passagem para aquele local, a pedra era de um azul nunca visto pelos olhos do rapaz. Uma linha delimitava uma sombra estranha dentro da pedra que era translúcida em certas partes e negra em outras. O azul da noite de lua cheia e o verde da folha mais clara se misturavam em equilíbrio ali.

—Para onde foram o protetor e os animais? —O guardião refletia consigo.
—Raramente em florestas vivas como essa existem animais, foi o que você me disse a tempos atrás.
A sobrancelha de Liof mostrava seu total desconhecimento da lição aplicada ao menino.
—O que mais eu te falei?
—Falou que as que possuem, tem animais fantásticos, você me mostrou na parte normal da floresta os animais raros que havia ali. Os lobos de olhos diferentes, que caçavam de formas diferentes.
—É verdade, agora me lembro um pouco. Lembro do seu silêncio.
—Sim, você ensinou que ouvir é mais precioso que falar.
—Algo me diz que precisamos destruir essa pedra, ela não pode ser destruída por nossas ferramentas, como faremos então? —O lampejo dos pergaminhos passaram pela mente do velho
—Temos os escritos.

Eles retornaram ao acampamento, acharam os pergaminhos mas eram muitos. Duas sacolas cheias, alguns estavam manchados, outros queimados, mas a grande maioria estava intocada.
O dia já se findava, a noite impossibilitava a leitura. Decidiram descansar nas relvas verdes da planície no subsolo da floresta. Os cabelos brancos do homem sentado balançavam. Ele respirava profundamente e inspirava de mesma forma, deixando o ar dançar em seus pulmões. O tempo havia passado e ele não havia esquecido a sensação da concentração no simples ato de respirar. Muitos dormiam, mas conservavam-se acordados, os únicos quatro que sabiam que aquilo ali não era o fim da jornada. Loreah se remexia deitada pensando no motivo da destruição de sua terra natal, por algum motivo aquele local a fazia rever questionamentos antigos. Marian ainda sentia o sentimento de culpa, mas encontrou um descanso no ombro de Sten. O rapaz passa em sua cabeça a jornada até ali e experimentava pela primeira vez o aconchego do formar de um sentimento. As raízes no novo céu iluminavam, a tentativa de acender fogueira foi frustrada pelo ambiente as madeiras não propagavam a faísca e qualquer outro tipo de fogo a floresta rejeitava com um vento providencial. O velho guardião sentia tudo a sua volta, a floresta pedia ajuda. A pedra azul pedia liberdade.

A fresta deixou a luz adentrar de forma amena e acordar com delicadeza a todos, Os pergaminhos começaram a ser lidos. Cartas de Guardiões para suas famílias, mensagens trazidas por pássaros ou por mensageiros. Enquanto os dois procuravam alguma coisa naqueles papéis, Loreah e Marian ajudavam a todos a conseguirem a realização das tarefas que sustentariam, o rio que passava por ali auxiliava na facilidade de se plantar algo. O solo era fértil.

Sten encontrou uma carta de seu mestre, essa não era primeira que ele lia do mestre afinal foi na floresta-sem-luz que ele aprendeu a ler.

“Minha amada, aqui os dias passam e nossa missão esta indo bem.
A convivência com os sábios e exploradores é uma forma divertida de se aprender coisas, aprendi outro dia a identificar plantas venenosas e como deixar uma trilha para amigos. Ant'jur continua meu treinamento como havia comentado com você. Estou melhor no arco!

Como esta nossa pequena? Já andou?
Estou contando os sois para poder encontrar com vocês e contar pessoalmente as maravilhas que existem aqui. Falar também dos amigos inusitados que eu encontrei.

Com todo amor.

Seu Liof.”

Sten não viu quando seu mestre havia se aproximado, ele tinha lido tudo aquilo. As lágrimas nos olhos do guardião provocavam a tristeza no rapaz. Liof carregava um pergaminho um pouco amarelado na mão. Ele não conseguiu continuar a ficar de pé e sentou-se. A tarde se foi embora. O antigo deitou-se tentando acalmar seus sentimentos e lembrança, tudo era confuso, tudo ressoa mais forte em uma cabeça fragmentada. A tarde se encontrava no fim e a imagem que Loreah viu de longe foi a do aprendiz como protetor de seu professor.

Assim que Liof adormeceu, Sten abriu o pergaminho que seu mestre havia nas mãos. Entendeu metade, pois possuía alguns caracteres que ele não conseguiu ler direito.

No pergaminho tinha escrito: “Anilea, pedra de cor azul. Que não pode ser quebrada de nenhuma outra forma a não ser o aquecimento.”


Como fazer aquecimento com árvores que possuem troco e folhas que não aceitam o fogo?
— Eu sei um jeito!
Marian surpreendeu o rapaz.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A morada dos Guardiões - As memorias

Era dos sete reinos

—Liof, o relato dos exploradores que voltam do sul do monte Nyrra, é que existe uma grande floresta modificada pelo poder da magia.
Disse o ancião de longas barbas negras ao homem de armadura prateada com contornos azuis
—Enfim encontramos um lugar onde criar nossa base de observação, por qual caminho os exploradores foram?
—Pelo vale das costas do esqueleto. - Disse o homem dos olhos serenos.
—Eles se arriscaram muito, se houvesse alguém vigiando do castelo branco, nossa missão poderia ser descoberta.
—Eles buscavam o sul, você entende que se eles passassem pelo labirinto-plano seria capaz deles ficarem perdidos naquela planície durante anos antes de encontrar a saída pra algum lugar que desse na área desconhecida.
—Sim eu entendo, Já vivi o bastante para ver que algo naquele caminho faz com que quem vá nunca chegue ao seu destino. Vamos, gostaria de chegar nesse local o quanto antes. Vocês sábios estão muito tempo sem fazer nada – abriu um sorriso.
Ant'jur retribui a brincadeira com o sorrir de seus olhos.

Saindo da tenda avisou aos outros guardas mestres qual seria o destino a seguir. Desarmaram as tendas, equiparam seus cavalos, vestiram armaduras e partiram rumo ao desconhecido. Subiram em direção ao castelo até chegar a primeira pedra do caminho do vale, o nome dado ao vale vinha de como o pôr do sol se mostrava olhando para ele, as sombras pareciam se estender como a costela saindo da espinha dorsal formando assim as costas de um homem magro. O tempo escureceu, a chuva aumentava o fluxo de um rio que começava em algum lugar dentro das cavernas do monte Nyrra e terminava nas terras inabitadas. A chuva atrapalhou a travessia, andaram pouco durante o dia. Tiveram que acampar no vale a noite. Ainda não tinha cessado totalmente, a chuva apenas servia para manter encharcado tudo que havia molhado durante o dia. Os soldados lamentavam toda aquela situação, as paredes do vale não ofereciam nenhum abrigo, não havia caverna e as tendas feitas de pano tinham goteiras estrategicas. Os sábios aproveitavam de alguma forma a chuva. Ant´jur percebia a forma como ela afetava o humor de cada um dos guardas, alguns se sentiam tristes, outros irritados, muitos estavam cansados, porém um dos soldados tinha uma energia maior. A natureza parecia em harmonia com aquele homem.

—Liof, o que te mantêm nos guardiões?

O cavaleiro foi surpreendido, ele estava sentindo a chuva cair em seu rosto. Lembranças tamborilavam em seu capacete.

—Além da missão que abraçamos, estou aqui por um amigo. O meu rei. —A resposta era sincera, mas soou incompleta quando ele se escutou tentou formular e gaguejou um pouco – estou aqui por minha família, sempre estive. Acredito que poderemos mudar o rumo da história, trazer a paz sem ter que atendermos aos caprichos aleatórios dos gigantes.

Ant'jur entendeu finalmente o que movia aquele homem.

—Você lembra quando me pediu para lhe ensinar sobre como utilizar as mãos como proteção?
A chama nos olhos de Liof se manteve acesa desde o final de suas ultimas palavras, ele as sentia pairando no ar e aquecendo seu corpo.
—Lembro você havia me falado que não poderia ensinar por não me conhecer
—A primeira lição que aprendi com meu mestre é que o nosso corpo é afetado por duas forças, a mente e a matéria. Para entender por que nenhuma espada vence minhas mãos você terá que entende o porquê essa primeira lição é incompleta.
O homem de armadura olhou o sábio e coçou a cabeça, não entendeu muito bem a fala, mas estava obstinado a descobrir. Assentiu com a cabeça. O homem de aparência serena voltou a suas meditações enquanto o cavaleiro foi treinar a esgrima. A noite se tornou dia e o cavaleiro procurava entender a proposta do sábio. O dia se seguiu acinzentado por cima do vale, eles avançaram com a maior velocidade que puderam. O ânimo de alguns se esvaindo cada vez mais, estavam o fim do inverno inteiro na missão e nada de encontrarem algo novo. Apenas velhos segredos. O passo tiveram que diminuir, os cavalos estavam exauridos, montaram acampamento. O clima dessa vez não batalhou contra a paciência dos guardiões. Sem dizer uma palavra Ant'jur convidou Liof para imitá-lo em sua meditação em forma de movimentos circulares com as mãos. Alguns dos guardas mestre riram do homem. Apesar de ser um dos mais respeitados ali, a amizade criada com todos dava a ligeira liberdade da brincadeira. Ele não estava se sentindo confortável então inclui sua espada aos movimentos e tudo pareceu mais comum. Um sorriso brotou no sábio.

Três dias se passaram e o treino de Liof havia sido transmutado em meditação, apendia com facilidade a colocar as armas em fusão com os movimentos do ancião. O tiro de arco dele havia melhorado consideravelmente, quando encontraram o traço da floresta que bilha quando o sol se põe, aonde o rio some para dentro da terra,  o chefe dos exploradores abordou eles.

—Guarda Liof, a floresta é altamente – ele buscou a palavra criada pelos anciões – é… mágica. Existem árvores feitas apenas de raízes, plantas resistentes ao aço e ao fogo. Todas elas têm essa luz azulada, a noite ela se torna mais forte mas não se pode vê-la de longe.

—Obrigado Alinx, já pensou em algum lugar em que podemos criar nosso acampamento principal?
—Não. Andamos muito ao redor e testamos as plantas daqui. Escutamos murmúrios la dentro dentro, achamos prudente espera as armas pesadas.
—Fez bem meu caro, eu teria feito o mesmo — aproximou-se do ouvido do explorador — mas não conte pra ninguém.
Os dois gargalharam.
—Guardas mestre preciso de vocês — gritou o líder por espontaneidade
a formação em roda foi feita, Liof olhava para os outros treze e falou com seriedade.
—Vamos entrar em terreno desconhecido, precisaremos de dois guardas mestres com cada um dos exploradores e um ancião deve acompanhar também. Buscamos um local onde poderemos construir nosso acampamento definitivo. Hoje é o que marca nossas buscas efetivas, temos pouco tempo.

A floresta ofereceu resistência a chegada dos cavaleiros, divididos de quatro em quatro os vinte e oito guardiões partiram na busca do melhor local para se estabelecerem. Dentro da floresta a luz tênue das árvores e das raízes não iluminava, os tropeços eram comuns e quando se encontravam totalmente imersos pela escuridão, fachos de luz laranja surgiam brilhando e apagavam, da mesma forma fugaz que apareceram, criando os murmúrios. Guardas gritaram e correram para os lados opostos da luz que surgia, Liof escutou os passos e o susto do encontro de armaduras gerou ataques, ele aparou um golpe e protegeu o explorado que estava com ele de outro.

- NÃO ATAQUEM!!! SE REUNAM!!! - berrou o líder.

Rapidamente eles se encontraram e fizeram uma roda. Mantiveram os sábios e exploradores no meio dela. Viraram-se de costas e esperaram, o silêncio no meio das luzes azuis lembrava o silêncio das noites. Liof se afastou rumando em direção a escuridão quando se afastou suficiente a luz laranja o ofuscou, suas pernas se mantiveram paradas. O coração acelerou então levantou seus olhos, um servo gigante estava a sua frente as chamas alaranjadas definiam sua forma, seus chifres eram labaredas e os olhos do servo lembravam o sol apino. O cavaleiro entendeu enfim o que havia falado o ancião. O servo podia ver no homem as suas intenções, limpas como um lago e claras, ele não tinha nada a esconder. As árvores se movimentaram, as raízes se moveram. O servo guiou o guarda mestre até um buraco feito de raízes e terra. Atravessando o portal Liof viu um planície feita abaixo da terra, o ar era acolhedor, outras árvores de luz com frutos diversos e variados tipos enfeitavam o resto da paisagem, um rio corria no meio daquilo tudo, alguns animais que pareciam comuns se abrigavam ali em harmonia. O servo desapareceu. O Guardião foi buscar os outros para dizer que o protetor da floresta havia aceitado a presença deles ali, desde que não destruíssem nada. Algo dentro dele dava a certeza da aceitação e das condições.

Todos foram guiados aquele local o último a entrar foi Ant'jur. Vendo aquilo escutou então em tom de voz orgulhoso o amigo que agora conhecia.


—O nosso corpo é afetado somente pela mente, é a mente que deixa a matéria interferir e não a matéria que interfere.

O sábio sorriu e completou.

- Assim como uma batalha já esta vencida antes mesmo de começar e talvez você possa ser nossa vitória.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O roubo - O soldado Ambíguo e os cristais vermelhos

-Dizem que o sentinela é capaz de ver do outro lado do mundo, que escuta seu nome a quilômetros e que por isso seu nome foi esquecido e agora é chamado simplesmente de O sentinela.
Terminava de falar Arl o homem mais velho da cidade.

Sten estava com seus olhos vidrados no homem, escutara poucas histórias da boca de Liof e talvez por isso começou a acreditar em tudo que o velho havia contado. Estavam todos sentados na antiga taberna de Uan, havia crianças sentadas no chão em volta do ancião. Aquela era a noite das lendas, onde o povo se dispunha a sentar e recontar as antigas aventuras, desde a saída de Ruflo da cidade, Marian tinha voltado com essa tradição e todos gostavam de escutar, ela olhava tudo com os olhos brilhantes como se transbordasse lembranças.

-Marian, como esse sentinela pode ter tanto poder assim?
-Você nunca tinha escutado essas histórias?
-Não mas devem ser de grande valia, Liof sempre me ensinava muitas coisas sem precisar falar e quando falava me dava coisas para pensar, algumas eu penso até hoje.
-Essas histórias, são – ela pensou muito antes de continuar – não são completamente verdadeiras, elas tem acréscimos que são dados por pessoas que provavelmente não conheciam muito do que falavam. Como a história que os garotos
criaram sobre você, falando que você é filho de lobos-olhos-negros.
– Eu não sou filho de lobos-olhos-negro, onde tirariam essa ideia? Nem tenho tanto pelo e muito menos os olhos negros.
– A rapidez com que lutou com os guardas da cidade,
para eles é impossível que você fosse uma pessoa nascida de gente, então eles assimilaram você com o animal mais rápido que eles já viram.
–
Eles nunca viram um leopardo-patabranca. - ele abriu um sorriso bem sincero – se bem que ser filho de leopardo-patabranca eu gostaria.
– Meu pai me falava, que das lendas podia se tirar grandes informações. Como essa sobre o sentinela, é fato que os soldados escarlates são insensíveis. Mas não acredito que haja um sentinela com essa capacidade de retirar a mente de um homem do corpo, isso é história pra assustar.
– Quem manda nesses soldados?
– Meu pai falava de homens gigantes que tinham tanta força que todos juravam lealdade só por verem a imponência deles. Eu pessoalmente acredito que seja um homem que resolveu não deixar com que as aldeias se comuniquem e controla o suprimento e produção delas.
– Os soldados escarlates pegam suprimentos da aldeia
– Sim, a cada mudança de estação eles vêm e trocam nossas mercadorias por cristais vermelhos. Que são utilizados nos postos deles para pegarmos outras coisas necessárias foi assim que conseguimos as pedras reforçadas das muralha
s e os equipamentos dos guardas e aqueles adornos da casa do Ruflo que venderei na próxima coleta.
– E as outras aldeias acham isso justo?
– Sabemos que elas existem, ma
s somos proibidos de falar com elas, nem viajar é permitido. Para passar para qualquer aldeia sem passar perto de um posto teria que se aventurar pelas matas ou montanhas. A única coisa que sabemos é que servimos ao dono do castelo branco.
– Isso não soa muito bom, meu Mestre disse que tudo tem que girar em torno de um acordo comum entre povoados.
Marian deu de ombros e seguiu para seu aposento com um pensamento incômodo.
Havia se passadio muitos dias desde que Liof deixara Sten ali, ele aprendeu a se comunicar mais. Aprendia bastante sobre como era viver com mais pessoas, não existiam desafios muito grandes. Ele era o guarda particular de Marian. Ele não utilizava cota de malha, nem elmos de ferro, muito menos lanças de madeira com metal, utilizava sua adaga e um velho machado que causava dores no coração daquela que ele protegia. O dia das pedras vermelhas chegou, as mercadorias estavam separadas em frente ao portão principal, Marian estava contando e recontando tudo. Um bater à porta. Sten subiu na casa, observando a movimentação de todos. Ao abrir da porta um estandarte com o símbolo dos cavaleiros escarlates surgiu. A mente do rapaz se enveredou por caminhos a muito não lembrados, aquele símbolo, aquela armadura. O ódio impregnou seu espírito e como um animal pulou para o telhado mais próximo dos soldados para o ataque, ele não pensou o que isso poderia acarretar para a aldeia, não pensou nas pessoas que morreriam ali caso ele atacasse, não pensava em nada. Ele ansiava pela morte de todos aqueles soldados portadores daquele simbolo. Soou na sua cabeça algo um pouco mais claro:
“
Você não reconhece minha armadura e o símbolo nela”.
Se agachou para atacar um único cavaleiro, o com o elmo vermelho sangue. Um borrão surgiu em sua visão, ele escorregou do telhado de uma casa para a parte mais próxima do muro, fazendo barulho. Mas não tão alto para perturbar muita gente, ficou escorado entre o muro e o beco formando um “v” com o corpo.

O sol já se encontrava em comunhão com o horizonte, apresentando tons de alaranjado no céu. A dor na cabeça o acordara, sentia como se uma cobra-d’água o tivesse jogado contra aquele muro e arrastado ele no chão. As costas reclamavam muito, os músculos da coxa também, ele passou quase meio dia ali. Virou o corpo e saiu ainda zonzo do beco feito da casa do guarda Riuna e o muro. Foi até a casa de Marian, onde a encontrou segurando o ombro enfaixado e chorando. Vendo Sten entra os olhos dela ganharam uma vivacidade incomum.
– AONDE VOCÊ ESTAVA?
– Fui acertado por algo e desmaiei.
– Estou cercada de soldados inúteis e a minha única certeza de proteção era você, agora não posso confiar nisso mais. - a voz dela passou de raiva pra um choro murmurado de revolta, Sten fez o máximo para não ser afetado por aquelas ofensas e pela primeira vez viu a beleza daquela mulher. Um péssimo momento pra enxergar isso.
– Marian me conte o que aconteceu.
– SAIA DAQUI!

O Selvagem saiu dali meio aturdido, pensando em como os olhos dela ganhavam vida ao estar brava, pensando em sua voz aumentando de intensidade conforme a veias de seu pescoço se mostravam. Foi como um novo encontro, como se até ali ele nunca tivera vislumbrado um terço do que era aquela mulher, essa nova forma de ver veio junto com uma tristeza inconfundível por ter ocorrido alguma coisa com Marian e ele não ter ajudado, pensou que poderia estar desacostumado com o sentido de vigília, já que ali não necessitava, se perguntou também se não tinha ficado cego de raiva. A raiva o inflou.
– Você está ficando mole garoto
O rapaz viu sua mente asserenar mais rápido que o vento apagando o pavio de uma vela em noite de vendaval.
– Mestre! Que alegria te ver!
– Alegria! Alegria! Alegria!
Cantou Liof.
– Sinto falta de suas lições. - falou o rapaz um pouco cabisbaixo.
– Lições? Não estou lembrado de nenhuma. – Disse extremamente confuso.
O garoto fez um aceno com a cabeça como se fizesse a mente pegar no tranco, lembrando-se de como era tratar com Liof
– Sobreviver.
– Sobreviva meu garoto, se bem que hoje sua vida poderia ter sido tirada de você.
– Eu sei, estava cego pela raiva.
– Raiva, isso não é útil nem pra proteção. Achei que havia te ensinado isso há muito tempo quando você queria se vingar de uma Lobo-olho-azul.
– Eu me lembro disso, sei que você falou pra aprender a entender ela. Eu não fazia ideia que estava chegando perto dos cinco filhotes dela quando fui catar amoras na árvore no alto da cachoeira.
– A raiva é o apagar do dia sem estrelas para o pensamento. – Deu um riso estranho – Eu não faço ideia de onde li isso.
O garoto viu uma lucidez estranha em seu mestre, Lembrou-se então do foco de sua pergunta.
– O que faz por aqui?
– Estou a três dias pensando se entrava ou se gritava do lado de fora. Quando os cavaleiros escarlates adentraram a aldeia eu me escondi. Quando foram embora, um dos guardas atacou Marian e pegou a bolsa com cristais vermelhos dela, ela segurou o braço do guarda. O elmo do guarda caiu e o guarda a atacou com a faca. Nisso eu já estava perto pra desviar o golpe. Dele ou seria dela… Estou confuso. Desviei o golpe e a faca rasgou o braço de Marian enquanto isso ele, ela!? Correu. E sumiu pelo portão principal. Eu ia corre até ele, mas sem a raiva da agressão consegui entender que atender a garota era mais urgente. Ela ia perder muito sangue até alguém conseguisse saber como costurava aquele ferimento.
A raiva transformou o rosto de Sten em uma careta.
– Já te disse que careta só funciona com rã-amarela.
– Você me viu antes do acontecido?
– Não enxerguei nada dentro dos muros até o ataque da soldada ou seria soldado?
– Então como sabe que eu fui acertado? – ele pensou muito rápido na pergunta – Já sei, você sabe que eu não deixaria que atacassem Marian, então só havia duas opções.
– Morte ou sorte.
– Sorte?
– Sim, se a soldada ou soldado não te matou porque você estava com sorte. O golpe com a faca foi preciso, pensou até na possibilidade de cometer um erro no ataque, mas o erro não impediria do dano ser alto.
– Temos que Descobrir quem foi. Marian não esta brava a toa, deverá fazer falta esse recurso.
– Sim. Não se preocupe tanto, só existem dois lugares para ele fugir. O resto daria morte na certa.
– Amanhã vou caçar esse infeliz!
– Já te falei que raiva não serve nem pra defender. Não servirá para caçar.

sexta-feira, 20 de março de 2015

O sentinela - O ultimo filho

A escuridão reinava, a névoa espessa cobria os gramados mais verdes de Inana a aldeia mais próxima do monte Nyrra. A rocha esverdeada e o castelo monumental faziam uma sombra densa cobrindo a aldeia de toda a luz do luar. A casa mais pobre da cidade, continha a porta de madeira feita da madeira de outras portas partidas e quebradas formando uma escultura sombria. Dentro da casa não havia móveis apenas muitos panos estirados no chão, um homem tremia deitado neles. Era um dos marcados pela perda de alguém para o sacrifício cíclico que os anciões daquele local faziam em nome do Deus Apo que garantia o prosperar da aldeia. Alguns consideravam dádiva, muitos não confrontavam o sacerdócio por temor e outros apenas eram livres desse compromisso. A raiva e a contradição impregnavam até a sua essência, mas nada era maior que isso a tristeza da lembrança dos olhos grandes de sua pequena Tyila.

Ele gritara. Defendera sua pequena, que possuía apenas cinco primaveras, com unhas e dentes, mas de nada adiantou, eles a tiraram dele, como se estivessem arrancando seu coração. Ela foi ofertada para Apo em uma cerimônia que era sinistra, ele se lembrava do cheiro no ar enquanto a madeira da fogueira central era consumida com voracidade pelas chamas, cheirava a sangue e cabelo queimado. Ele reagiu contra os anciões, contra as pessoas, foi desprovido de todos os seus bens exceto a casa, apanhou de arruaceiros e guardas e quando viu que seus gritos e súplicas foram calados no silêncio da humilhação e da loucura, decidiu confrontar Apo e buscou nos pergaminhos antigos, nas tábuas desenhadas e enfim a busca na própria montanha.

Aquela noite quieta, onde não se ouvia os lobos, nem o vento, nem as portas rangendo. Ele sonhava pela primeira vez em anos.

"Papai... Papai..."

As palavras não foram escutadas, foram sentidas. Um tremor, como o de um trovão abalou o homem, sentiu doer cada um dos seus músculos, esticarem, relaxarem, esticarem novamente. Ele não sonhava, abriu os olhos, sentia braços e pernas pesados como uma pedra, a pressão no peito incitava a tosse, mas o corpo não respondia ao estímulo, enxergou a neblina que o cercava, ela não era branca. Uma fumaça densa, de um negrume de uma noite sem estrelas, formou pequenos filetes que se levantavam em sua direção, queria piscar, fechar os olhos para ver se o escuro das suas pálpebras podiam salvá-lo mas ali permaneceu de olhos esbugalhados enquanto um dos filetes tomava conta de sua visão, aproximando cada vez mais. Ao contato sentiu sua pupila se dilatar, ganhar um diâmetro incomodo, e logo doloroso. Sentiu como se tateassem dentro de sua cabeça procurando algo, como se os tentáculos que entravam pelo seu globo ocular estivessem varrendo o interior da sua cabeça, a dor lancinante o levou pra fora da razão.

A luz, um salão, prateleiras de madeira, pergaminhos. Foi arrastado, jogado em uma cena da própria mente. Ele olhava o objeto cristalino com a forma da cabeça de um lagarto. Sua mente trovejou novamente

"Mente... limitada... espécie fraca..."

Viu então dois sóis que gelaram seus ossos.

Na manhã seguinte, aquele homem que lamentava pela filha havia morrido.
O primeiro cavaleiro escarlate havia nascido e acabado com aquela aldeia.

Essa é a história do único homem que viu o Ultimo filho.

O sentinela.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O homem que mudava historia - Marian, A primeira rainha.

Os pés da jovem Marian tinham mais pressa que precisão, corriam em desajuste, por vezes faziam ela cair na floresta escura, arranhões começaram a ser feitos em suas pernas. A Floresta-sem-luz parecia sedenta por vida. Seus galhos, cipós e folhas se movimentavam como se o vento os estivessem empurrando em direção a garota. Mais um tombo e agora escorreu uma gota do sangue da jovem, escorreu pela panturrilha e encostou em uma raiz um pouco mais alta. A raiz contorceu-se bruscamente e começou a crescer de forma a envolver a perna de Marian. O desespero ao sentir o galho envolvendo sua perna cresceu abruptamente em seu interior e deu mais velocidade ao seu corpo, desvencilhou de uma prisão fatal e correu mais rápido que os seus sentidos em estado normal poderia correr. Enxergou ao longe uma luz brotando entre as árvores de troncos volumosos e galhos firmes, seus sentidos presumiram ser um lugar seguro já que tudo à sua volta era treva. Os pulmões se enchiam de ar rapidamente e junto com a expiração começaram a sair gritos com o timbre agudo do medo e da força. Liof estava deitado a beira de seu abrigo na clareira, um lampejo desceu sobre o louco

“Um grito de mulher, uma mão imensa quebrando uma torre de um castelo majestoso. Uma criança em meio ao desmoronamento. Pernas paralisadas. Coração acelerado. Lágrimas.”

Sten levantou-se em silêncio profundo em um movimento automático, segurou sua adaga preparando-se para um ataque. Liof sem mover seus olhos do céu surpreendeu os ouvidos de seu aprendiz
—Ajude-a — a voz saiu um pouco embargada — Leve ela para as pedras cinzas do início do abismo de Rungdar.
As palavras saídas da boca de seu mestre gerou duvida em Sten, hesitou por alguns segundos
—AJUDE-A!!!!
Gritou em um tom firme, mantendo uma lucidez incomum. Sten pulou segurou-se em um galho mais abaixo, impulsionou em direção ao grito, segurou no tronco no diâmetro máximo que sua mão conseguiria segurar, os pés oscilaram no ar e logo encontraram o apoio do tronco e ele escorregou até as raízes secas da árvore com velocidade correu sem precisar olhar por onde caminhava. Adentrou a penumbra das copas da árvore a tempo de ver a mulher ser agarrada por uma Galho mais veloz, segurando-a pela cintura. Sorte a sua, pensou Sten. se fosse uma raiz a faca não conseguiria libertá-la. Com um golpe rápido libertou a moça, passou sua mão por sua cintura num giro rápido modificou sua direção de movimento. A floresta se tornara mais violenta, Sten percebeu que se ela continuasse a correr poderia causar mais problemas, ela não conhecia a floresta, logo a colocou em seu ombro. Exato momento em que um buraco foi aberto entre as raízes mostrando o solo a uma altura de um homem mediano, escorregando o rapaz de olhos negros seguiu o movimento que começara e lançou a mulher sobre o buraco fazendo-a cair um pouco mais a frente, as raizes se revoltaram esquecendo-se do garoto formando um emaranhado de galhos a altura de sua cintura, por pouco não foi perfurado. Ganhou apoio e logo se encontrava em corrida, Marian tinha se machucado mais ainda. Os galhos estavam prontos para abraçar a mulher, O jovem movimentou-se velozmente erguendo-a e seguiram correndo, fugindo de ataques de cipos que começaram a enlaçar-se como a formar uma teia, avistaram a ponta de uma pedra cinza, onde nada crescia, onde floresta parecia acabar. Um suspiro, um galho que agarraria o braço da jovem abriu uma ferida no pescoço de Sten, ferida não profunda mas foi suficiente para sangrar. Empurrou a mulher de forma a fazer com que ela alcançasse a pedra. Uma raiz o fez perder o equilíbrio e logo outra se enrolou em seu pescoço aplicando uma pressão enorme, sentiu o corpo pedindo ar e os músculos pedindo liberdade. Amaldiçoou-se por ter esquecido o machado por alguns instantes e logo sentiu a razão começar lhe faltar quando sentiu o ar voltar de súbito e os músculos relaxarem.

— Que ideia estúpida, estúpida, estúpida...

Um sorriso brotou nos lábios do rapaz ao ver a imagem de seu mestre destruindo galhos, cipós e raízes que atacavam com um machado.

— Vamos garoto, arraste essa cabeça vazia para o abismo. Já não basta ter me feito correr?

Cumprindo então o que lhe foi ordenado se juntou a mulher, pela primeira vez parou e reparou na mulher, a ultima lembrança que carregava de uma mulher era os longos cabelos cacheados de sua mãe. Algo novo surgia em seu interior ao observar as curvas da moça, o vestido rasgado ainda a matinha descente aos olhos de onde ela aprendera o que era decência, os olhos do rapaz fixaram no volume acima da cintura. Um barulho espalmado e volumoso ecoou pela floresta e abismo, Liof se surpreendera, olhou para trás e começou a gargalhar muito alto, caminhou até a pedra cinza, puxando o ar algumas vezes para poder recuperar do riso, deitou-se na pedra e continuou a gargalhar de barriga pra cima. Seus olhos enxeram de lágrimas
— Desculpe — ele deu uma pausa entre uma sílaba e outra tentando recuperar o folego — ele nunca viu uma mulher antes e não tem modos para com damas — o riso finalmente foi se extinguindo
ela que estava com o rosto contraído, ofendida, passou para uma expressão de incompreensão levantando sua sobrancelha esquerda.
— o que você veio fazer aqui minha senhorita?
Perguntou o velho, fazendo uma mesura. Colocou uma perna na frente da outra mantendo o corpo ereto, curvou-se e levantou a mão direita na lateral do corpo. A mulher não entendeu.
— Estava fugindo de Filliangan.
— Por que fugir?
Abaixando a cabeça, algo pareceu doer dentro dela
—Minha aldeia já não é a mesma desde que meu pai foi morto por Ruflo. As coisas pra mim e minha mãe se tornaram pesadas demais, fomos presas e deixadas a merce do novo líder. Limpávamos a casa dele e o que mais mandasse. Ele diminuiu a comida de toda a vila, domina a todos com seus capangas. Apos a morte da minha mãe, ele me quis para ser sua mulher e quando me vesti para a cerimonia em que ele me apresentaria como sua mulher, consegui fugir. Preferia morrer na Floresta-sem-luz que viver do lado daquele homem.
—Isso não é justo, esse tal de Ruflo não parece ser boa gente
—Meu pai não era o melhor dos lideres mas ele tinha a honra dos velhos guardiões para seguir.
—Olhe! Um guerreiro da velha guarda? Eu sabia que reconhecia esse machado
A menina olhou para o machado, as lágrimas brotaram insistentes em seus olhos esverdeados, logo a descrença nublou sua mente. Como poderia um homem de cabelos brancos ou um jovem franzino matar seu pai? Preferiu acreditar em um golpe de sorte de Ruflo, preferiu achar que a floresta poderia ter o ajudado a pensar que algum dos dois pudesse vencer seu pai em combate.
—Vamos voltar para a sua aldeia e fazer as coisas ficarem justas, ficarem corretas....
—Você é louco? Se eu voltar lá, estarei perdida. Sem falar nos soldados fiéis ao líder
—Louco? Louco? Não entendo essa palavra - seus olhos se movimentaram devagar olhando todo o abismo a sua frente - hum... Vamos!
—Eu não vou a lugar nenhum.
Ela falou fechando a cara e cruzou os braços.
—Então fique ai na pedra, eu não aconselharia a ir para a floresta antes de cicatrizar suas feridas. Vendo as suas acho que um dia e meio e estará tudo certo. Vamos Sten! Vamos seguir pelo paredão para encontrarmos esse tal de Ruflo em Falligan.
Sten andou até onde a rocha acinzentada terminava, pulou. A jovem olhou assustada por cima dos ombros da figura esguia que ia se virando.
—Não se assuste menina. existe... como eu gostava de chamar mesmo? Aaaa a saia do abismo — riu baixinho fazendo com que a mão encontrasse os lábios.
—Vou com vocês já que deve se a única maneira de sair daqui.
Ela andou em direção a ponta cinzenta, Liof lhe estendeu a mão tal qual seu pai o fazia quando falava que ela era a dama de Pirneszar, ela olhou tentando encontrar algo seguro no fundo do abismo. Um solavanco a desequilibrou e fez cair em direção ao negrume, suas cordas vocais protestaram causando um riso do velho que soltou sua mão e segurou firme em seu antebraço antes que ela pudesse realmente se soltar, balançando ela em direção ao jovem de cabelos desgrenhados que de pronto a segurou. Seus pés encontraram um local seguro, ainda tonta pelo pequeno salto não reparou que havia abraçado Sten. Ele sentiu os braços dela o aquecerem como a melhor fogueira que ele aprendera a fazer, sentia conflitar dentro de si o desejo de permanecer ali por até que as árvores dessem flores e a vontade de que seu espaço fosse aumentado com a rapidez de um raio, suas mãos acabavam de soltar da cintura da moça e os olhos foram magneticamente atraídos para seus pés.
—Vamos.
Soou a voz estridente do velho.

O vento soprava na fenda fazendo música nas cabeças dos três, os olhos treinados de Liof o fazia indicar o caminho com a perfeição que um louco poderia indicar, as vezes a beira em que caminhavam se fazia de meia caverna e deixava com que se sentisse mais protegidos mas era quando o louco mais gostava se aproximar da escuridão do ar do abismo.
—Como vocês descobriram essa fenda na montanha?
Finalmente Marian quebrara o silêncio de muitas horas.
—Eu e Liof escavamos cada parte até Chegar em um pântano.
A frase saiu displicente.
—Só não demos a volta no mundo porque nem todas as pedras são tão fáceis de escavar-
Liof falou se divertindo com a ideia de cruzar o mundo.Tudo lhe pareceu tão absurdo que ela se calou por alguns instantes, pescou então na mente uma palavra que tinha passado desapercebido.
—Você falou pântano?
—Sim é onde encontramos uma das pedras mais duras existentes, até com presas de cobra d'água tentei arrancar ela e nem arranhou.
—O pântano fica próximo de Falligan.- a decepção reinou em sua voz- Não sei pra onde ir, pra ser sincera nem sei se há aldeias perto da nossa. Os cavaleiros escarlates nunca permitem que saiamos de nossa cidade. Pouquíssimas vezes vi algum viajante chegando na aldeia.
—E nenhum deles se reunirão de novo.- Estacou o velho vidrando os olhos na noite olhando de uma forma diferente para a escuridão.
— O que? Não entendi o que você falou.
Ele não repetiu, o silencio imperou novamente.

Quando a noite se encontrava mais densa encontraram a rocha rubra a brilhar como brasa, Sten subiu com uma naturalidade o paredão, esticou a mão e Liof se pendurou fazendo questão de pular um pouco em direção ao abismo e foi soerguido com uma velocidade impressionante, logo o braço se estendeu e a puxou para cima da rocha, ao se levantar na beira ela cambaleou mas logo encontrou o apoio do braço que a havia puxado.
—Vamos dormir aqui - decretou o velho — não se dá uma lição a essa hora da noite em ninguém, quero que ele esteja bem acordado para aprender direitinho!
Eles deitaram um pouco depois da pedra em uma relva, verde em que Marian contou as estrelas até adormecer, Liof apagou feito uma criança que gastara suas energias pulando, brincando e inventando histórias. Sten demorou a dormir, não estava acostumado a presença de outra pessoa a não ser seu velho amigo e analisava na mente as novas descobertas do dia.

Um frio correu pelo corpo de Sten, abriu os olhos sentindo a neblina ao seu redor, ele vestia apenas um cota feita da pele de um Lagarto-pele-de-pedra, feitos por Liof e o ar gelado adentrava os buracos da vestimenta.
—Que bom que acordou garoto. Precisamos de alguma coisa pra comer
O velho se encontrava sentado no galho de uma árvore distante o suficiente para ter gritado um pouco.
A menina estava apreensiva, com a visão nublada pela névoa não fazia ideia de qual sentido tomar para a sua aldeia. Enquanto ela pensava, viu Sten enfiando as mãos dentro das águas que apresentavam uma camada de névoa um pouco mais densa por cima. Apos muitas tentativas o rapaz havia capturado alguns sapos-linguaroxa e rãs-brancas. Liof levou galhos mais secos das arvores, que buscou de seus topos e fez uma fogueira. A mulher se controlou para não vomitar diante daquela estranha refeição matinal. Terminado a refeição o louco rumou em disparada pelo pântano sem pensar em uma direção qualquer
—Eu sei onde é, Eu sei onde é!!!
Sten seguiu sem pensar duas vezes.
— Ele realmente sabe para onde esta indo
falou a menina pegando um pouco de folego.
—Eu não sei.

Depois de correr pelo pântano e errar muitas vezes o caminho, a silhueta da aldeia se mostrou. Casas com telhados e paredes de pedra branca. As tochas da aldeia começavam a ser acesas enquanto os três se aproximavam. Os sentimentos dentro de Marian se misturavam: sentia raiva daquele local por ter permitido ser dominado por um líder desleal, sentia medo por sua vida e estranhamente sentia-se segura ao lado daqueles dois selvagens da floresta-sem-luz.
—Como é seu nome querida?- Perguntou o velho como se tivesse feito uma indelicadeza.
—Marian.
—Meu nome é Liof e esse ao meu lado é meu aprendiz Sten— Ela olhou estranho para o velho- Como é que uma pessoa se torna líder na sua aldeia?
—Tem que se vencer o mais forte da aldeia...
Um brado parou os três.
—Vocês três o que vieram fazer em Falligan?
Liof respondeu com muita sinceridade em sua voz
—Vim entregar Marian para Ruflo.
O instinto dela a fizeram recuar, o medo tomou conta de seus membro, Sten a segurou pelo braço acalmando ela e de alguma forma fazendo com que ela se sentisse segura. O Guarda que estava ao lado do portão de entrada, logo se direcionou aos três com no punho da espada
—Pode deixar que eu entrego-a.
Ruflo cuspiu no chão.
—Você não vai receber a glória em meu lugar.
A expressão do guarda se fechou, ele puxou um pouco a espada colocando a guarda um pouco mais a cima da bainha, O louco não sentiu medo.
—Senhor seja sensato, você não me conhece e nem a meu aprendiz. Arrumar briga com inimigos que não se conhece é pedir para ser surpreendido.
A espada se completou a bainha novamente e gritou para o guarda mais próximo.
—Rinua Deixe os passar, vamos levá-los ao mestre!
O guarda parou olhando os dois dos pés a cabeça, tentando entende como um velho maltrapilho e um jovem com aspecto de mendigo haviam o feito temer, Seguiu e seguiu as costas de ambos.
As ruas estavam sujas, com sacos de guardar grãos rasgados no chão, palhas estavam espalhadas pelas ruas, porcos vagavam sem rumo. Caminhavam em direção ao coreto da praça central da aldeia, a cada passo mais um guarda se aproxima, por curiosidade ou por ordem. Perto da praça Via-se uma casa que destoava das demais, paredes de pedra vermelha com muitas tochas, e adornos coloridos em janelas e portas. Os moradores começaram a se aglomerar para ver pessoas novas, coisa rara de acontecer por ali, muitos cochichavam a ao ver Marian. O clima se adensou enquanto um dos soldados foi avisar a Ruflo, logo saiu da casa vermelha o homem que se encontrava diferente de quando trombou com os dois na floresta estava gordo, bochechudo e furiosamente corajoso. Sten não o reconheceu.
—A Garota vou te ensinar a nunca mais desafiar meus comandos- fala quando se aproximava da mulher que estava sendo segurada pelo rapaz, segurou em seu braço e a retirou das mãos daquele que a guardava. Liof começou a gargalhar. Todos silenciaram.
—Você não nos dará nenhuma recompensa senhor? Afinal trouxemos sua futura mulher de volta


A raiva que já transparecia pelas bufadas que ele dava no ar, se voltou em forma de Brado
—O que vocês querem de recompensa?- riu debochando- já sei p que vocês merecem, soldados matem esses dois intrometidos!
Liof gargalhou novamente, Sten então entendeu. Viu nos olhos de Ruflo aquele homem medroso que deixara ir embora quando ameaçou o sua casa. Os guardas desembainharam suas espadas.
—Esperem, porque você está rindo?
—É divertido ver como uma posição mudas as pessoas, vou querer como recompensa que você passe o domínio de sua cidade para Marian, já que você não soube aproveitar isso.
Soou de forma firme e assombrosamente poderosa a reivindicação, Ruflo olhou desacreditado para ousadia do velho e então reparou no jovem quer o acompanhava e estremeceu
—Matem eles! MATEM ELES!
As espadas começaram a dançar, Marian saiu da linha de combate para uma ruazinha onde observava o combate. Liof desviava com maestria de cada uma delas, Sten avançou e ganhou a distância até o líder, retirou sua adaga e escutou entre o tilintar das armaduras em movimento
—Não mate ele.
Liof segurou o braço de um soldado que o atacava com mais vigor e o torceu causando dor suficiente para que ele desistisse, algumas espadas foram em direção de Sten. Desviar de espada era ridiculamente fácil quando se aprendera a desvia das garras de um Carcur. Vendo os movimentos de longe, Marian entendeu que seu pai havia sido morto por um daqueles dois selvagens e não por Ruflo. Ela chorou. Sten apoiou-se na perna de um soldado para dar passagem, sentiu sob seus pés o joelho dele estalar. Rolou e segurou o gorducho pelo pescoço e a luta cessou ao mesmo tempo com um soco na têmpora, Liof desmaiava mais um soldado. Tomou então a palavra.
—Senhores e senhoras, Marian me trouxe a notícia de que esse homem tem causado muitos problemas para a vida de vocês- Escutou a multidão concordando e alguns soldados envergonhados da fidelidade aquele homem gritar também- Então vamos expulsá-lo daqui e nunca mais venha a essa cidade. A pena dele será viver caminhando por ai.- Escutou-se algum murmúrio de desejo da morte de Ruflo— E mesmo que não concordem, eu que venci o lide poderia muito bem me proclamar líder daqui mas não o farei, quero apenas que esse homem seja exilado e que Marian possa liderar essa aldeia da melhor forma possível, Estamos entendido?
A multidão concordou. Marian saia da ruela em que se escondera, limpando as lágrimas e mantendo a máscara de gratidão apontada para Liof. Sten levou Ruflo até a porta de entrada da aldeia e o atirou para fora dali.
—Vou embora Sten, você fique aqui pois Marian necessite de uma ajuda e você precisa apender mais sobre mulher- saiu gargalhando pela porta da aldeia. Aquela noite houve festa na aldeia.

Sten então transformou a mulher que era escrava em líder maior de sua aldeia. Que um dia iria se tornar a primeira rainha de Valian

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O homem que mudava historias - Liof, o louco da floresta

Essas folhas verdes são engraçadinhas, ficam cocando meus arranhões, o céu ta bem azul, o que é isso na ponta do meu dedo? Cuidar da escuridão cuidar... Quem gritou? Onde? Vamos, nem lembrava que sabia passar tão fácil pelas árvores, como sei disso? Olha uma borboleta, o grito! O grito!! Uma mulher morta, um homem sangrando, daqui a pouco a floresta faz eles viverem dentro dela, o cara com a espada vai matar o menino, isso não é justo, não é justo! Vamos la vamos la! Pular da árvore nele seria legal
—senhor tenha vergonha, sem honra alguma?
—não se meta nesse assunto. Você não reconhece minha armadura e o símbolo nela
—símbolo legal, não iria me meter mas não é justo, não é justo, não é justo — repetia constantemente balançando a cabeça
— você já me irritou
O homem de armadura escura atacou, o magrelo de olheiras se esquivou muito rápido, mais rápido que sua idade poderia aparentar. Utilizando-se do peso da armadura, o senhor dos cabelos acinzentados torceu o braço do cavaleiro, o estalo ecoou seguido do grito de dor, a fúria tomou conta do ferido, o menino de uns cinco anos olhava toda aquela ação em silêncio. Desvencilhou-se o cavaleiro. A raiva cegou o pensamento e os próximos ataques vieram como uma besta atrapalhada que é grande demais para passar sem esmagar as pessoas, ouviu-se mais uma sequência de estralos, pulsos, cotovelos, dedos, joelhos, pés foram deslocados, quebrados, torcidos com uma rapidez e facilidade que levou o horror da morte aos olhos do cavaleiro. Aos passos calmos, buscou como se já soubesse onde procurar uma adaga, que ficava na cintura daquele tipo de cavaleiro. Entregando ao garoto enfatizou como um floreio no movimento
—agora sim vocês terão uma luta justa, utilize a espada com sabedoria e não se esqueça, essa floresta está viva!
A justiça foi feita! Utilize a espada com sabedoria… que engraçado de se dizer, sempre quis dizer isso! Agora espero que o menino sobreviva…
Um grito interrompeu o pensamento, o grito vinha debaixo das árvores, abafado e sumindo.
A floresta se moveu, garoto esperto, ainda não sabe o que significa sobreviver mas é justo o suficiente, gostaria de ter um filho assim... Um castelo sendo esmagado por mãos gigantescas, uma mulher gritando, um bebe chorando, meus olhos veem uma placa de metal, os escombros gerados acertam pessoas aleatórias, porque eu não me mexo? Porque? Poque essa tristeza profunda? Essas imagens loucas… Olha uma borboleta, o que aquele menino faz me seguindo?
—você de novo? Vem vamos precisa de comer alguma coisa, e pare de chorar
O menino engoliu o choro e seguiu se sentindo seguro
Primaveras se completaram, Liof se apegou ao menino, via que desde muito novo a sua disciplina era exemplar, o menino escutava cada uma de suas instruções, mesmo que as instruções fossem displicentes e loucas.
-precisamos de comida, esta vendo aquele buraco perto da cachoeira pode ser um local bom para procurar.
O menino afirmou com a cabeça o entendimento de tudo aquilo, pegou um pedaço de pedra pontiaguda e foi em direção ao buraco, sentiu o ambiente em volta, pulou sem verificar a profundidade do buraco que tinha o diâmetro necessário para ele apoiar os pés. Ele sumiu na escuridão. Um silvo surgiu no ar. O menino foi arremessado com violência de dentro do buraco, ele se segura nas narinas de uma serpente d'água, o olhar dele era de desespero fitando o seu mestre.
-Sobreviva garoto! Sobreviva!
Ele repetiu as palavras afinando a voz e dançando desengonçadamente, enquanto isso a serpente balançou para a esquerda tentando esmagar o menino em uma pedra, rapidamente ele saltou de cima de sua cabeça e bateu as costa em uma superfície menos pontiaguda que apenas arranhou a pele, em meio a dor entendeu que aquele homem não iria o ajudar como sempre, seu olhar se tornou determinado. Estava acuado feito um rato, lembrou-se de sua pedra segurou-a na mão apertou com alguma força, a cobra sentiu a mudança de atitude mas atacou, rapidamente ele utilizou o paredão pedroso que havia nas suas costas para pegar impulso o suficiente para se movimentar em direção ao olho, acertando e fazendo o silvo de terror tornar-se de dor, aproveitando o debater do animal cravou a pedra no outro olhou, agora cego o animal recuou para o buraco de onde havia saído. Pegando a pedra em sanguentada ainda, aproximou-se do buraco e cravou a pedra na barriga do reptil, o incomodo fez ele aumentar a velocidade com que ia para dentro do buraco, isso a pedra prendeu durante um tempo na parede do buraco para abrir uma ferida. O som atormentador da serpente cessou, o menino pulou no buraco e no fundo um lago subterrâneo se mostrou, dentro dele uma serpente morta, arrancou carne suficiente da serpente e ainda pegou a ponta da presa da cobra, Saiu com dificuldade do buraco pois carregava uma grande quantidade de peso ao chegar no topo o velho amigo o puxou para fora, parecia já estar preparado para algo, o menino enxergou em traços aquarelados e logo os sentidos foram.
O crepitar do fogo acordou o garoto ele olhou buscando alguma explicação para a noite e para a sua perca de razão.

—simplesmente o sangue da cobra d'água é venenoso, depois de alguns minutos perde-se a visão, perde-se o tato e logo perde-se a vida.

O silêncio do garoto demostrou o entendimento da lição, assim como todas até ali aprendidas.

-Já sei, você vai se chamar: Sten! Como demorei pra encontrar seu nome!
Rindo muito de sua demora. O menino acabará de ganhar seu nome depois de passar onze invernos ao lado daquele velho que deixara de ser um louco vagando por uma floresta, para ser um louco que cuida de um menino como se fosse o melhor dos pais.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O homem que mudava histórias - O líder imprudente

O campo do lado norte ao castelos dos gigantes, era de um verde mais escuro que em outros lugares, muitos desconfiavam que aquela vivacidade na vegetação era oriunda da floresta-sem-luz, suas arvores tinham copas enormes capazes de cobrir todo o caminho com a escuridão. Os moradores daquela região tinham um limite para penetrar na floresta, eles sempre deram atenção a uma arvore que destoava de todas as outras pois ela possuía as folhas de cor carmesim. Uan era o líder da aldeia de Filliagan, ser líder dependia exclusivamente de ser o mais habilidoso nas lutas, naquela manhã ele escolhera uma forma muito estranha de se afirmar poderoso.

O homem com cabelos negros corria velozmente atrás de Ruflo, um reclamador comum mas aquele não era o dia correto para reclamar da variedade de animais assados na taverna do líder, o pobre homem magro só sabia correr, entrou na floresta-sem-luz, passou pela árvore vermelha sem ver. Aqueles que acompanhavam incitando a briga, estacaram diante a árvore.

—Fracos vocês tem medo de uma árvore?

Gritou o grandalhão. Partiu à procura de sua vítima, seguiu o barulho da corrida do frágil, que caía constantemente. Uan também caía porque o negrume era enorme, sua mente não raciocinava os perigos que poderia haver ali. Seguiram nessa perseguição por tanto tempo que acharam uma clareira no meio da floresta, ao aproximar-se da luz viram que havia no meio uma árvore, raízes grossas e folhagem irregular, agora o tropeço levou Ruflo ao chão. Uan foi implacável, avançou como o predador que abaterá a caça, um chute mal dado no tronco fez um grito sair abafado por entre os lábios:
—Não foi por mal a reclamação, eu estava errado, sua taverna tem uma variedade ótima de carnes e bebidas
—Irei te levar a um lugar onde não poderá reclamar nem da vida.
Segurou o machado com toda a vontade e raiva que ele tinha, esticou o braço preparando o golpe. Uma sombra surgiu, tirou o equilíbrio do executor com um golpe exato no joelho, as mão afrouxaram e o machado caiu, fazendo viver o reclamão. Entre o grandalhão e sua vitima estava um jovem, cabelos desgrenhados, sujos e grandes, com a cabeça baixa, mas com os olhos fixos no homem que se levantava lentamente, a postura do desconhecido era a de um animal protegendo sua casa. O homem esboçou um sorriso, fazia tempo que não tinha um oponente, todos da aldeia o respeitavam e quando tinha seus acessos de raiva apanhavam quietos ou corriam como Ruflo, para saciar um pouco da sede de sangue que adquirira nas guerras, resolveu perseguir ele, ganhara então um desafio.
—Saia do meu caminho ou você morrerá junto com esse infeliz
Cuspiu Uan. O rapaz rilhou os dentes enrijeceu os músculos e buscou algo amarrado no pedaço de pano que cobria a cintura, tirou uma adaga totalmente branca, parecia feita do dente de algum animal, o brutamontes se moveu em direção ao seu oponente, ruflo buscou a proteção da árvore, a velocidade do garoto era impressionante, ele esquivou do golpe movendo-se para frente e abaixando-se em um movimento limpo, projetou seu corpo segurando o homem pela cintura, com o peso os dois foram ao chão, adentrando um pouco da escuridão ao redor da clareira, rapidamente o garoto arrancou o cordão do pescoço do homem e perfurou-o num mesmo movimento. As forças de Uan se esvaíram e o selvagem se afastou como se algo causasse medo e logo as raízes seguiram em direção ao sangue tragando o corpo sem vida. Virando-se com um certo alívio, olhou o homem que via aquela cena escondido, então lançou o cordão com força em cima do homem e com a mesma velocidade, iria executá-lo. Mas escutou uma voz estridente:
—Deixe-o em paz Sten! O pobre homem já tomou susto demais por um dia e você magrelo nunca mais traga problemas para floresta, aqui é um lugar amaldiçoado, suma!
O homem não pensou duas vezes, correu com o colar na mão para a direção de onde viera. Disciplinadamente Sten subiu na árvore enquanto escutava a risada insana de seu guardião.
Ruflo além de reclamar, sabia aproveitar as oportunidades. Voltou utilizando-se do colar para confirmar a história de que havia acabado com a vida de Uan, muitos duvidaram, mas ninguém o contestou e a partir daquele dia a aldeia tinha um novo líder.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Os irmãos servos

O Sr. Desol foi descansar logo após de seu almoço farto, o corpulento senhor das terras ao oeste do monte Nyrra, mas não antes de ofender os dois jovens servos, Fianr e Resnir, eles já estavam acostumados com as torturas e ataques de seu senhorio. Os irmãos esperavam aquela hora desde o amanhecer para começarem o treinamento de armas, a única chance deles deixarem aquele local era serem habilidosos o suficiente para entrarem para armada do rei Sten, o justo. Foram para as ruínas do castelo dos gigantes no monte Nyrra, as lendas e a ordem do rei mantinham todos afastado daquele local, era o campo de treinamento perfeito para dois servos que não poderiam ser vistos, eles não sabiam muito bem o que fazer mas já haviam observado cavaleiros treinando, brandindo espadas, esquivando e medindo força. Reproduzindo os movimentos, treinavam, Resnir era feroz em seus ataques, o ódio sentido pelo seu senhorio era dissipado em cada golpe dado com a lâmina improvisada, seu irmão aparava imitando sua movimentação, um golpe mais forte fez Fianr escorregar e o seu peso foi o suficiente para fazer uma fenda na base da enorme pedra ceder fazendo-o cair dentro do castelo, a terra que entrou junto com ele aliviou um pouco a queda na enorme masmorra. Resnir pulou para dentro da fenda sem se preocupar com a altura, os raios do sol que entraram mostraram a pedra branca de que era feito aquele castelo descomunal pintada com o verde do musgo e com a sujeira da umidade e o pó, mostrou também a silhueta de Fianr segurando o braço olhando fixamente para a porta. Após o impacto que fez os joelhos reclamarem da queda e as vestes mais sujas, Resnir viu que seu irmão estava andando hipnotizado ignorando a dor do braço fraturado, ouviu então o sussurro de palavras jamais escutadas convidavam os seus sentidos a segui-lo. Acordaram do transe enfrente a uma sala que destoava de todos os outros cômodos, eles não faziam ideia de como chegaram ali, os degraus das escadas precisavam ser escalados, algumas portas eram grandes e pesadas demais para serem abertas por apenas dois garotos, Uma chama iluminava o interior da sala dentro de uma redoma de vidro em forma da cabeça de um lagarto que os olhos dos meninos nunca haviam visto, as paredes com infinitas prateleiras abarrotadas de pergaminhos feitos de couro com símbolos indefiníveis, como dois insetos foram atraídos pela chama, esticaram as mãos e ao tocarem no orbe as escritas fizeram sentido.Perderam a noção do tempo, ignoraram as necessidades básicas, lendo os pergaminhos. Descobriram o que havia antes de existir o tempo, aprenderam a pronunciar as palavras primarias e praticaram a magia primordial.

Foi assim que se abriu a nova era da magia em Valian