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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Tya- O torneio( 2 de 3 )

— Loreah! Loreah!
Gritavam Pirtrio e Pãtrio
A ladina estava parada com o capuz verde pendendo no pescoço, era o segundo oponente da espada, não era sua especialidade mas o duelo anterior tinha atraído bastante atenção. Havia ganhado do segundo colocado do ano anterior com um golpe. O seu segundo oponente era um dos guardas que havia cercado ela e seus amigos. Ele a temia, apesar dela ter sido nocauteada com certa facilidade ,os primeiros movimentos vistos deixaram uma impressão sobre ele. Retirou a espada da bainha fazendo barulho. As regras do torneio de esgrima eram simples, o primeiro a sangrar perdia. Claro que eram evitados os pontos vitais, batalhas as vezes eram decididas com arranhões superficiais feitos pelo solos. Loreah porém não ligava para isso. O oponente que a enfrentou pela primeira vez saiu com a bochecha trespassada pela lâmina da ladina. Ela só tinha um oponente em mente. A batalha final era realizada por todos os competidores que obtivessem três vitórias, podendo perder apenas uma vez.
— Estou sem paciência—Loreah chamou mais um soldado que estava na fila, ele achou que lutar contra a estrangeira seria uma forma fácil de conseguir vitória.
— Eu?
— Claro! Vamos vocês dois contra mim pra resolver isso logo.
— Isso não seria justo.
— Injusto é eu enfrentar apenas um de vocês.
O soldado anterior mostrou magoa nos olhos e atacou, Loreah esquivou-se da investida com facilidade.
— Vamos! Rápido! — Ela acenou para o soldado que ainda estava em duvida em ataca-la junto com o outro, ele aceitou a batalha.
— Eu não preciso da sua ajuda—reclamou o soldado ainda se recompondo do golpe falho.
No mesmo instante sentiu a lâmina subir cortando a sobrancelha, o sangue pingou na bochecha. O outro olhando aquilo golpeou a ladina que tinha o braço estendido apontando o céu com a ponta da lâmina ensanguentada.
—Pronto, agora não tem mais choro — ela deu um passo para o lado e golpeou a mão do rapaz que não conseguiu interromper o golpe. Ele abriu a mão deixando a espada cair. A base do dedão sangrava. A ladina não pretendia causar danos maiores em lutadores fracos. Ela desejava o sangue de Ádaia, que já esperava os oponentes da parte final do torneio da espada. A guarda mestre treinava seu arco, enquanto entre uma parada ou outra testava o gosto das novas receitas feitas por seu marido Cilindor. Loreah viu que ela não dava a menor importância para quem iria ir contra ela. Isso só fez seu sangue ferver mais.
Marian olhava hipnotizada para a caixa. Buscava na sua mente todas as histórias que sua mãe havia contado. Quando a noite caia, Ruflo trancava as duas em um dos cômodos da sua casa e aquele cômodo era o cenário de histórias até a morte da mãe dela. Ela buscava as histórias porque os animais não eram estranhos, ela não estava prestando atenção mais em nada. Absorta em seus pensamentos concluiu que se fosse algo óbvio demais as pessoas já teriam aberto aquele cubo.—Sten, o torneio aqui esta a forja e as ferramentas necessárias.—Obrigado Calinor.—Outra coisa, você tem três dias para terminar o que for fazer, seja armadura, arma, cela, qualquer coisa— O menino estava ofegante — Essa é minha primeira tentativa de entrar no torneio, minha mãe falou que eu estava preparado há um ano mas eu não queria mexer com culinária igual meu pai, eu quero é mexer com criação de armas, igual meu tio. Ele que vai me ajudar, seremos uma dupla esse ano. Eu ainda não tenho força para martelar o metal mas meu tio fala que tenho boas ideias — Ele abriu um sorriso.— Aonde consigo a matéria prima?— Tudo fica nos depósitos, eles ficam aberto e você pode pegar o que quiser, depois do torneio todo que utilizaram vão minerar. A única coisa que é bem limitada é os itens que vem dos animais, só aproveitamos as partes dos animais que morrem.— Obrigado Calinor.— E vê se não esquece os pontos de forja.Sten balançou a cabeça e pegou as ferramentas que demorou dois dias para conseguir com ajuda de Calinor.


A tarde de disputas continuou, até a regente declarar o término do primeiro dia. Uma grande fogueira foi feita, e os cozinheiros finalistas se prepararam para criar as comidas mais gostosas e que dessem mais energia. Uma grande festa, muitas canecas de cevada amarga, sucos de mangedéias e muitas comidas. Todos estavam feliz, todos não. Loreah estava longe da festividade, tinha voltado para a pena de luz. Estava em seu quarto no escuro sentada virada para a parede, seus dentes rangiam, adaga riscando a parede, ela desenhava um símbolo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Estradas de Valian - Posto norte e a cidade de Runei

O posto dos cavaleiros escarlates, tinha o símbolo estampados em todos os lados e ao contrário do costumeiro silêncio que escutou-se milhares de vezes em roubos bem arquitetados. Ela ouvia os burburinhos e ordens. Cavaleiros com senso de humanidade era algo notavelmente confuso.
—Como pessoas servem sob esse símbolo? Conheceriam eles o dono do castelo branco? —a ladina questionava sem se importar com as pessoas ao seu redor.
—Fique quieta, você não está vendo que alguns cavaleiros já olharam pra gente? - Sten buscava enxergar algo que fosse diferente nos outros soldados.
Os dois andavam em meio a troca de mercadoria. Eram pedras de todas as formas, grãos, tintas, frutos e roupas. Loreah escondia seu cabelo com um elmo
— Ei recrutas! —Uma voz firme fez com que os dois parassem.
O homem passou ao lado deles e chegou a dois rapazes. Pela aparência umas cinco primaveras mais novos que Sten.
—O que estão fazendo sem o amuleto escarlate?- O cavaleiro mais velho, deu um tapa na cabeça dos dois e logo após entregou dois amuletos e logo entrou em uma tenda. Os meninos seguraram firme os amuletos e despistadamente deixaram eles dentro de um amontoado qualquer de pedras, Loreah entendeu então a intenção dos dois. Começou a andar em passo acelerado para encontrar os jovens, O rapaz de cabelos negros a acompanhou.
—Eu vi o que vós fizestes com os amuletos, seus fedelhos – Loreah fez o melhor para fazer sua voz de autoridade. Os dois correram em direção a saída oposta a estrada que Loreah e Sten utilizaram para chegar até o posto. Os soldados que viram a movimentação não se importaram porque observavam um cavaleiro aproximar dos dois, A ladina deu espaço para eles chegarem uns vinte passos depois da entrada. Ela então acelerou seu movimento, porém os dois ainda tinham energia de sobra. Sten acompanhava deixando sua companheira fazer o que ela quisesse. Quando ela acertou um deles com uma rasteira. O outro parou
—Eu falei que isso ia dar errado. Eu sabia! Porque você tinha que dar ideia de roubar cristais do posto.— Resmungava o menino caído.
Sten pulou sobre o que estava parado e o imobilizou.
—Porque já fiz isso mais de uma vez e eles nunca notavam. —Ele estava bravo com a inutilidade de sua força diante das mãos firmes do selvagem.
—Hoje é o dia de sorte —mulher de cabelos loiros falou esbanjando um sorriso – Gostaria de obter algumas informações, aonde se situa a aldeia mais próxima.
— Hãn!? —Os rapazes estavam surpresos e sem entender direito.
—Vocês não são de Runei?
—O que me faltava era ter um Tyars no posto daqui.
Sten e Loreah se olharam sem entender.
—Nós somos de lugar nenhum e estamos perscrutando por informações sobre os soldados escarlates e seu senhor.
—Então é uma ladra como nós! —O sangue de Loreah fervia, tudo era aceitável menos ladra.
A adaga escondida sob a armadura apareceu marcando com uma linha vermelha muito fina a pele do rapaz preso por suas mãos. Ele entendeu que devia se silenciar.
—Faremos alguns questionamentos, se responderem de forma a agradar nosso anseios deixaremos que vivam. Caso não sejam satisfatório, dreno a vida de vocês lentamente — Ela usou palavras que seu próprio tio um dia usou, contra invasores da sua aldeia.
—Ei vocês dois! Levem esses Merdinhas para a aldeia deles. —Um guarda que estava de saco cheio dos novatos instruía de forma inconsciente.
Como não sabia como responder, levantaram os dois e andaram para estrada afastando-se do posto.

—Porque roubar deles?- A pergunta de Sten foi límpida, sem julgamentos.

—Na nossa imensa aldeia existem a grande divisão, a parte alva e o grande buraco. Como vocês podem ver nós somos do buraco. Lá as casas são feitas de simples madeira e não possuímos muitas posses, apesar de nossos pais trabalharem dia e noite nas minas buscando pedras e metais para os cavalheiros vermelhos — a tristeza oscilava na voz do garoto que Sten já não segurava tão firme assim.
— Eles fazem a gente trabalhar por comida, Mesmo assim a porção que nos dão não é suficiente. O destino de quem vive no buraco ou é virar mineiro ou soldado. Nós não queremos ser nenhum nem outro e por isso que estamos buscando formas de sair daquele lugar mas para sairmos precisamos de cristais vermelhos.
—Não compreendo, vós conseguiríeis sair da vossa aldeia e não encontram alimento nessas matas?
—Todas as árvores de frutos nessas estradas perto do posto, são envenenadas pelo ancião amigo do tirano Vasnoir.
—Como meninos como vocês sabem de tanta coisa?
—Senhor aonde vivemos as ideias têm que vir dos mais novos, os adultos se acostumaram a concordar com tudo que o tirano impôs mas para termos ideias escutamos atentamente as histórias das nossas avós.

Sten escutou no fundo do seu ouvido as palavras de um velho louco: “Isso não é justo, isso não é justo, isso não é justo!”

Caminharam por bom tempo e se depararam com o olhar atento da guarda de armadura perolada e branca, os muros altos eram da mesma cor. Loreah entendeu o porque do nome parte alva. Os garotos os conduziram por um túnel estreito longe dos olhares dos vigias, eles andaram, o escuro deu vantagem aos meninos, eles sabiam aonde ir e tentaram se desvencilhar. Esse tipo de atitude é algo inaceitável para Loreah ela não esperou o garoto ganhar qualquer distância que seja. A adaga encontrou o braço do rapaz. O grito assustou seu amigo que abortou a fuga.
—Por favor senhora, não mate ele.- suplicou o outro rapaz.
—Vós desonrais nosso tratado pacífico. Corra a frente de um cachorro que te vigia e se prepare para mordida.— Ela ponderou — será que torno você um exemplo para seu amigo?- a adaga se moveu lentamente
— Não senhora, por favor!—o amigo que estava com Sten falou novamente.
—Loreah, não faça isso, são só garotos.
—Eles tem que aprender.
— Não precisa ser assim. Garotos, iremos soltá-los e acompanhar vocês para conhecer sua aldeia, viemos saber quais são as aldeias por aqui.
—Mas pra que vocês querem conhecer as outras aldeias? O dono do castelo não proibiu isso?— o menino de olhos mel perguntou.
Loreah estancava o sangue do corte que não foi tão profundo com uma tira de tecido que ela havia arrancado do manto de um dos guardas. Sten olhou para o garoto.
—Sim, é o que me disseram mas nunca vi o senhor do castelo. Você já?
—Vimos uma vez, ele é enorme e possui a armadura monstruosa de cristais vermelhos.
—Estamos buscando em outras aldeias pessoas que queiram junto com a gente descobrir mais sobre esse senhor que governa em silêncio.
— Conte comigo!— falou o garoto baixo, entre dentes.

A luz aumentou no túnel e eles chegaram ao buraco passando por uma porta fictícia entre duas casas que eram escoradas na rocha, dava pra ver quanto estavam abaixo da parte Alva. O local estava cheio de casas feitas com madeiras finíssimas e mal acabadas, a sujeira formava alguns pequenos furacões de poeira. A aparência de todos ali eram marcadas pelo sol, olhos cansados. Um portão dourado e vermelho figurava após uma escada enorme. Provavelmente a ligação da cidade alva com o buraco. Era a única saída do local. Sten teve na mente o buraco da cobra d'água que enfrentou a muito tempo atrás e pensou que poderia ser uma grande ameaça se eles conseguissem despejar água naquele local. Um sino soou.
—O que foi isso?— Loreah questionou
Alguns olhos curiosos se voltaram para os garotos, eles fizeram sinal e um senhor acolheu todos para dentro das casas.
—Eles estão descendo com o Vasnoir, hoje é dia de entrega da porção de comida.
—Porque estamos nos escondendo?
Precisamos trocar de roupas, essas armaduras podem dar grande problema.

Rapidamente Sten, o dono da casa e os dois garotos estavam do lado de fora, vestidos com o pano malcheiroso e de mono cor marrom. Esperavam Loreah se trocar. Inúmeros guardas saíram das portas, Um homem de capa vermelha e roupa branca e dourada surgiu do meio deles. Uma fila foi organizada. As pessoas se amontoavam, pelo menos duas vezes a população que existia em Falligan antes do ataque.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O vale costas-do-esqueleto - O necessario

As cores do vale começaram a figurar diante dos olhos atentos de Loreah, ela estava submersa em lembranças. Quando o sono não aparecia ela matinha a mente ocupada, tentando achar motivos para o ataque a sua aldeia. Ela andou até Marian e a acordou.
—Vamos, não querias aprender?
Ainda confusa a mulher de cabelos castanhos, se levantou de pronto. O corpo dela estava começando a se acostumar a aquelas situações. Andaram se afastando dos dois, que ainda estavam dormindo.

—Vamos começar pela postura e andar.
—Como assim?
—Precisas de equilíbrio. A batalha se encontra toda nele.
O franzir do nariz de Marian denunciou sua falta de entendimento, a ladina apontou logo para a cicatriz no braço direito.
—Com equilíbrio certo, consegui vencer até o bloqueio do Liof e te causar um ferimento grave —
A líder de Falligan entendeu enfim que não só aprenderia a se defender mas também causaria dor e isso fosse o que ela vinha evitando — Toda a questão não é acertar, é tomar a decisão mais certa para o momento e equilibrar-se é ter todas as decisões nas mãos.
Suas palavras ecoaram com a voz de seu pai em sua cabeça.

Ela riscou linhas no chão que iam da beira do rio até a parede do vale, ao terminar não precisou falar o que fariam. Começou a correr pisando entre as linhas e voltava pisando da mesma forma, Marian começou a correr junto com ela. Chegando no centro percebeu que a passada de Loreah se tornava diferente, ela pisava de lado e sua velocidade continuava a mesma. Ela tentava acompanhar mas seus pulmões reclamaram, a ladina estacou consequentemente a mulher dos cabelos castanhos também.
—Olhe suas pegadas no chão – elas ficaram alguns segundos em silêncio.
—As minhas se misturam com a linha. Eu cheguei a pisar algumas vezes.
—Exato, Observes e aprendas.

Elas retomaram a corrida.

Liof acordou, cruzou as pernas e buscava no fundo da sua mente os movimentos do passado. Sten observava calado ao longe as duas mulheres treinando.
—Mestre, quando voltaremos as lições?
—Eu não me lembro aonde estávamos, eu não me lembro de muita coisa da época da floresta.
—Você estava me ensinando o combate de mãos. Pelo menos era assim que você falava.
—Entendo — a mente dele vagou buscando alguma referência. O rapaz percebeu a dúvida na mente do velho.
—Homens são como armas, como flechas, são homens-flechas. Onde unidos podem representar sua grande potência, a ponta é o ataque, o fuste é a base e as penas são a defesa. Você poderia utilizar qualquer arma e encontraria a mesma ideia. — ele deu uma pausa — Foi isso que você havia dito um dia antes de toda a sequência de fatos que nos trouxeram até aqui.

O Guardião analisou tudo aquilo e os movimento vieram na sua cabeça novamente. Ele levantou, devagar, respirou profundamente e fez um movimento acompanhando o vento. O tempo voltou, e ele acompanhava ant'jur. A respiração parou e o movimento também, uma pontada atrás dos olhos. Ele forçou o corpo a continuar e fixou na lembrança. A cabeça reclamou, dessa vez não foi surpresa, ele aceitou a dor e manteve o movimento. Ele enxergava o homem de roupas largas e confortáveis, a barriga grande, a barba e cabelos escuros e o olhar determinado. Com sangue escorrendo pela boca e os dentes encharcado com o líquido, caído e arfando em seus braços.
Ele abriu os olhos e viu que Sten o copiava precisamente. Ele então foi firme.

—Vamos! retire a sua adaga.

Loreah, achava importante a determinação de Marian. Era algo essencial na mulher de olhos marcados por acontecimentos dolorosos, Ela a olhava como igual.

—O meu povo sabia sobre o equilíbrio, sobre o momento certo de saber fugir. Meus familiares saquearam mais de dez alojamentos vermelhos, andavam livres pelo mundo, se esgueirando nas sombras e buscando abrigo em qualquer lugar. Os que saim nem sempre voltavam, eles sabiam dos riscos e aceitavam a consequência de suas escolhas.

A ladina prestava atenção nos passos, retirou a ponta da flecha que havia sido ricocheteada pelo golem e arremessou na direção do pé da mulher que repetia a ação ensinada. Mecanicamente ela trocou a forma de pisar e apagou parte de uma das linhas, As sobrancelhas de Marian se curvaram e seus olhos foram de encontro a ladina procurando explicações.

—Atenção, não deixe que minhas ações afetem seu equilíbrio. Você aprendeu a repetir. Aprenda a variar. Uma pausa.

Beberam um pouco da água do rio, ela tinha um gosto de minério mas não se importaram.

—Esse exercício, vai durar quanto tempo? — ela estava ansiosa para fazer coisas que vira a ladina fazer.

—Até você desenvolver um novo. Esse exercício, eu criei quando fui treinada por meu pai e por minha mãe. Meu pai me ensinava como sobreviver e minha mãe a combater. —Orgulho e saudade emanavam de sua boca.


Liof atacava, e Sten defendia perfeitamente. O pé do sábio buscou a lateral do corpo do jovem, com um salto ele evitou o golpe. Encostando os pés no chão a lâmina de Liof resvalava na adaga do oponente, Sten estava em defesa. Como as plumas de uma flecha a defesa dava estabilidade, para análise. A adaga fez um arco na frente do rosto do homem de cabelos brancos. Ele refutou o movimento largando a espada curta no chão e levantando as duas mãos, forçando o golpe do garoto a ir em direção ao céu cinza. A adaga foi forçada a sair da mão que a empunhava. Ela caiu. Os joelhos ,de ambos, se encontraram no mesmo local, os dois perderam a base. Agora ambos figuravam ao chão esfregando para esquentar a área do joelho que sofreu o impacto.

—Está certo, você tem reflexos e percepção bem afiados.
—Coisas que a floresta-sem-luz proporciona com o tempo. — ele havia entendido que seu mestre não se lembrava de nada mais recente.
— Não se gabe, não comecei a te treinar pra valer. Queria saber até onde tínhamos ido.

O sorriso brotou nos lábios de Sten.

Após um tempo de treinamento ouve uma pausa, Liof se direcionou até Loreah


—Vamos a frente? — questionou o guardião.
—Não, se faz necessário mais dois dias de treino antes de sabermos o que se esconde daqui pra frente.

Ele assentiu com a cabeça. Voltaram então para seus treinos. A noite se foi e ambos os mestres estavam contentes com a progressão dos aprendizes.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O vale costas-do-esqueleto - Os passos

Os primeiros passos dentro do do vale foram estranhamente familiares para Liof, eles caminhavam com cuidado. Avançaram durante uma manha inteira e nada tinha mudado tudo parecia os mesmos relevos, e sempre, as mesmas rachaduras nas paredes. O rio que cortava o vale ao meio era o que diferia ate certo ponto, a partir do momento em que ele se tornou caudaloso o suficiente para se ter que atravessar eles ficaram junto em uma mesma margem.
—Liof quantas pessoas existiam no local onde você morou? - Marian pensava em como a quantidade de pessoas da sua aldeia diminuiu com o ataque
—O reino havia mais de cinco mil habitantes. Eram vilas com casas enormes. Mercados cheios, comidas de muitos tipos, as ruas viviam cheias de pessoas o dia todo. Eu gostava em particular da noite quando havia música e histórias. As pessoas eram alegres, eu vivia aprendendo com os cavaleiros antigos e com guardas mestre que se propunham a contar seus feitos. coisa que na época era enfrentar um animal grande, vencer torneios de habilidades, vencer um sábio ou outro no jogo de palavras. - ele deu um suspiro sentido - nenhum dos meus mestres já mais soube o que é estar em guerra ou o que eram os gigantes.
—Havia necessidade dele acrescer tanta história assim? Ela só perguntou da população - sussurrou Loreah, sendo importuna com o propósito de espezinha o rapaz de cabelos negros e pouca barba. Ele ignorou-a ou, pelo menos, tentou.
—Nunca vi alguém reclamar tanto quanto você
Um sorriso brotou no canto da boca da ladina.
O guardião estacou e pediu para todos pararem, uma fumaça começou a cobrir as águas do rio e o chão a frente deles. A vista começou a embaçar e logo uma parede branca se figurava a frente deles.
—Vamos andar juntos, não sabemos o que se esconde aqui. Muito cuidado.
Sten enxergou um vulto no meio da névoa e seu instinto o fez atacar. Ele não escutou o que Liof gritou, ele apenas agiu. Retirou sua querida adaga de um suporte de cipó trançado que ele mesmo havia feito. Atacou acertando o ser. A adaga penetrou uma couraça espessa, fez barulho de vidro rachando. O sulco que saiu da ferida aberta cristalizou ao contato com o ar. O ser grunhiu, se contorceu com velocidade descomunal e da mesma forma desferiu um golpe com uma de suas mãos deformadas. O Homem de cabelos pretos foi lançado a metros da figura, saindo da área nevoenta. Os três correram para ajudá-lo, ele cuspiu sangue. Quando chegaram perto o ser disforme atacou. Retirando-se da névoa, corria lentamente. A figura assustava os sentidos. A Metade direita de seu rosto era flácido mostrando o interior vermelho abaixo do olho, que figurava morto na face que seria de um homem, a outra parte do rosto era composta de cristais vermelhos quais um coral sobre a carcaça de um barco. Ele arrastava a mão envolta por minério parecido com as paredes do vale. Uma de suas pernas era diminuta, o que fazia-o mancar. Uma corcunda vermelha nascia de sua omoplata aonde a adaga branca estava fincada.

O ataque foi defendido pela ladina que rilhou os dentes com o golpe, se não tivesse feito isso, Sten estaria com grandes problemas. Ele levantou-se correu em direção a figura disforme, esquivou de outro ataque da mão enorme. Projetou seu pulo em direção a adaga. Suas mãos seguraram firme o cabo da mesma. Uma flecha zuniu. O rapaz apoiou os pés na costa do ser, montado no monstro arregalou os olhos. Viu Loreah com o arco em mãos, buscando outra
flecha. A revolta do corpo fincado pela adaga lançou novamente Sten ao ar, ele conseguiu equilibrar seu corpo para cair de forma premeditada. Caiu rolando para trás a flecha raspou em sua cintura, encontrou o pé da figura e o chão firme. Sten estava preparado para outra investida, quando o monstro tentou movimentar-se e desequilibrou caindo no rio. A água o esfarelou, como se ele fosse feito de areia. Nem a pedra vermelha sobrou. O chiado da respiração do homem com a adaga, era a única coisa que quebrava o silêncio. Ele olhou para a ladina, encontrou os cabelos dourados desarrumados. As sobrancelhas quase se encontrando franzidas, ele viu uma borda de um vermelho mais intenso nos lábios dela. Loreah também havia sofrido danos internos com o ataque.
—Ótimos tiros—ele não quis falar sobre a imprudência dela atirar com ele se movendo na frente do alvo.

—Eu não mirei nele—ela riu um pouco.
—Venha aqui Sten—Liof falou com um tom simples e firme.
O rapaz andou até seu mestre. O velho arrancou a adaga da mão do rapaz.

—Entendo o instinto, ele ira te salvar incontáveis vezes—ele fez um arco com a mão na horizontal na direção do pescoço dele, o rapaz pego de surpresa esquivou—Mas se você não utilizá-lo com um pouco de raciocínio – dele desferiu um chute com a sola do pé que agora tinha um envoltório que foi encontrado na morada dos guardiões— você tera problemas – a mão do mestre encostou no tronco do selvagem e o desequilibrou na direção do rio. Ele cairia se não fosse seu mestre segurar seu antebraço no momento correto—Foi isso que fez a figura a nossa frente a cair, isso foi o que você fez atacar. Quando atacar, saiba porque você está atacando. Quando se defender, saiba porque o oponente ataca. Cada movimento, é precioso e único aproveite os movimentos. Antes mesmo de executá-los.
Sten estava acostumado as lições praticas do seu mestre mas não as palavras dele, ele precisaria de tempo para entender tudo aquilo.

—Ele é excêntrico, não achas?—Disse a Ladina para a mulher de cabelos castanhos.—Você poderia me ensinar a lutar Loreah?- Marian pediu com sinceridade.
—Claro—Respondeu desconcertada.
Todos se reuniram um pouco antes da cortina branca e espeça.

—Vamos com Cautela, não ataquem. - ele olhou para Sten em forma de repreensão.
Eles avançaram alguns metros, unidos observado tudo. Novas figuras surgiram, todas com olhos e rostos voltados para locais diferentes. A caminhada era lenta, eles escutaram estralos e barulho de ossos quebrando.
—Quando eles se encontram eles atacam – sussurrou o Guardião.
—Então eles só enxergam quando são tocados –
concluiu Marian—Se existir muitos deles próximos pode haver uma catástrofe até que eles caiam no rio. —A ladina falou.—Exato —Liof encerrou a conversa.

A caminhada foi longa e a passos curtos mas eles aceleraram para que não estivesse ali durante a escuridão da noite, pois ela poderia gerar grandes problemas e talvez sentenciar o fim da jornada. A névoa se desfez, uma figura enorme ocupava aquela margem do rio. As estrelas surgiam, atrás daquele ser com a altura de cinco homens medianos. Seus braços e pernas eram cobertas de pedras, e nas paredes daquele local via-se os buracos de onde foram retiradas. A partir da cintura do monstro era tudo cristalizado até o pescoço e o rosto era a única coisa de humano naquele ser, a pele flácida como se houvesse ficado na água durante muito tempo.
Ao ver as figuras saindo da parte esbranquiçada, bateu as mãos uma na outra.—Acho que esse ai nos enxerga—comentou Loreah.

Ergueu seu braço imenso e deixou a gravidade agir fazendo sua mão ir de encontro aos quatro, Sten foi rápido e ajudou Marian a sair do local de impacto. Loreah e Liof voltaram para a névoa. Sten viu a outra margem do rio livre.
—Atravesse o rio, Eu sei como vamos vencer ele.

Um daqueles que não enxergavam saiu da névoa em direção ao golem e foi esmagado de pronto por outro ataque, a pedra vermelha foi atraída pelos braços do monstro e derretendo, fluiu como sangue até a placa cristalizada no tronco.

-
Ele parece ser o que os outros um dia vão se tornar – Liof falou saindo da névoa onde se escondeu.

Uma pedra acertou o golem, Sten chamava a atenção dele. Ele se virou lentamente em direção ao rapaz e novamente ergueu o braço, uma flecha de Loreah atravessou o ar e foi rebatida pela placa de cristal vermelho.
—Excremento!
Liof soltou uma gargalhada com a forma da ladina xingar.
—É assim que seu povo pragueja?
—Não é obvio?
Ele riria novamente mas o golem já estava atacando eles,
de novo foi fácil de esquivar. A velocidade era pequena mas Liof sabia que seria questão de tempo para haver um golpe que encurralaria pelo menos um dos três. Marian já estava na outra margem do rio. Os cabelos de Sten se movimentavam ao vento em sua investida. Fazia tempo que ele não sentia o prazer da velocidade em seu rosto. Cravou sua adaga na perna mais próxima, ela era mais resistente a lâmina que a omoplata de cristais do monstro menor. Seus pés se apoiaram na perna tal como ele fazia ao subir na árvore na clareira onde morou, seu corpo conhecia o movimento. Pegou impulso, arrancou a adaga e subiu mais um pouco, vendo aquilo o ser de pedra e pele se movimentou tentando tirar ele dali. Loreah preparou outra flecha. Sten tentava se manter equilibrado. Um tinir chamou atenção do monstro, Liof retirara pela primeira vez sua espada da bainha, desde que encontrou uma na nova casa dos moradores da falligan caída. Uma lasca de pedra saiu da perna, a atenção do agredido estava dividida quando decidiu atacar Liof, a seta penetrou seu rosto róseo e macilento abaixo do seu olho. A abertura cristalizou todo o objeto e a pele. Ele não tinha mais a visão de um dos olhos. O rapaz já alcançara a cintura do golem. O guardião atacava com velocidade, causando o maior dano que conseguiria treinando contra uma parede de pedra. A noite já habitava o vale quando a ladina percebeu que não havia mais flechas.

Sten viu uma fresta nas costas do golem aonde já era pedra vermelha, encaixou sua mão no local. O movimento de ataque do golem pegou Liof de surpresa, o ataque foi com a perna que estava riscada e faltando algumas lascas. Derrubando o velho. Agora pisar no Guardião seria fácil, levantou o pé. Uma adaga branca foi fincada na parte do pescoço, O rapaz tirou a mão para não ser cristalizada. Outra adaga acetou no olho que ainda possuía visão que foi tomado de pedra vermelha. Sten deixou seu peso fazer o trabalho na queda do ser petrificado. O golem despencou. O rapaz estava na
área de queda e não conseguiria sair. O estrondo foi gigantesco. O tronco do monstro agora servia de ponte entre as margens do rio seus braços iam se desfazendo nas águas, ele se contorcia mas não havia nada o que fazer. A água ganhou um pouco da cor carmesim e Loreah logo correu o olho a procura de Sten, Liof também. Marian se aproximou do monstro transformando o receio por preocupação. O silêncio tomou conta completamente do local. O barulho dos pulmões de Sten buscando ar aliviou todos ali, ele saiu com sua adaga nas mãos e na outra mão um corte grande. Ele escorou na beira onde Marian estava próxima.

- Não queria deixa
r o maldito com minha adaga. - falou ele mostrando a arma ainda com pedaços vermelhos encrustados nela.


Ele subiu na margem, viu a parte central do corpo do golem rachando com a água que batia.

Liof e Loreah atravessaram para outra margem evitando o golem que agora estava sem seus braços, que foram esfarelados pelo rio. Chegando lá decidiram a
ndar mais um pouco para saírem de perto da névoa e evitar confrontos tão desgastantes. Acamparam, fizeram o fogo de forma comum. A noite agora se passava com Liof olhando para o caminho do vale invisível aos olhos na escuridão da noite, Marian cuidando do corte da mão de Sten, Loreah observando o lugar onde o golem havia caído.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A morada dos guardiões - O protetor e o caminho


—O que quer dizer esse símbolo?
—Meu pai me disse que significava fogo interior. - falou ela terminando desenho.
Eles haviam esperado a manha chegar para irem até a pedra Anilea.
—como vai funcionar esse treco—disse a ladina movimentando devagar o braço que estava quebrado, enquanto Liof analisava ele.
—meu pai me falou para utilizar esse símbolo com cuidado.
—ele proferiu quais eram tais cuidados? - falou a mulher impaciente
—ele não teve tempo—o olhar de Marian se perdeu um pouco—devia estar  preocupado com alguma coisa da aldeia
—como funciona isso?
—simples, você coloca a mão no centro do símbolo e ele vai gerar...
Sua mão no centro da inscrição brilhou em âmbar , a pele morena dela ganhou um tom azulado, seu lábio empalideceu. Seus pés não aguentaram mais ela caiu, os reflexo de Sten foi rápido ele conseguiu segurá-la antes de atingir o solo. Um estalo na mente de Liof fez suas sobrancelhas arquearem.
—é isso! O cuidado que ela tinha que ter tomado é que a inscrição utiliza energia do seu ser.
—porque não falou isso antes -  Sten reagiu com rispidez - ela esta gelada.
O guardião não pensou duas vezes, puxou Loreah pelo braço. Ela gritou, chegaram perto da pedra. Ele fez um sinal pedindo a mão do seu aprendiz. Ele hesitou mas alguma coisa no olhar do velho fez com que ele lembrasse o louco que o criou.
—acho melhor você deixar ela no chão.
Ele a colocou com todo o carinho na parte do solo que parecia mais  confortável. as mãos unidas encostaram no símbolo. A sensação era horrenda, como se cordas puxassem os músculos e o calor. O frio começou a queimar. Sten pensou em desistir, sentiu seus olhos pesarem.
—não desista rapaz, precisamos de todos aqui.
A parte escura da pedra começou a movimentar-se e ganharam um tom de laranja ao invés do azul. O centro dela crepitou e enseguida uma explosão. Seus pedaços sublimaram,  os três que tremiam com o frio foram envolvidos pelo fogo e Marian também.
Passado o clarão, um servo com chifres pequenos de pequenas chamas azuis estava enfrente a eles, o animal extraordinário se aproximou.
—esse é o protetor da floresta que eu havia falado- a mão do guardião correu pelas chamas—o fogo dele só queimara aqueles que ele considerar ameaça.
Marian abriu os olhos, se sentia confortável, teve medo do ser a sua frente.
—és louco? —Loreah desferiu um soco na direção do velho, Sten aparou e ela investiu de novo.
—calma Loreah, ele sabia o que fazia—ela atacou e Sten decidiu receber o golpe.
—você nem percebeu que seu braço esta curado.
Ela parou e começou a movimentar o braço livremente. Marian levantou e andou ate o animal. Os olhos se encontraram
O servo se virou e seguiu em direção ao local habitado pelos sobreviventes da aldeia. Olhando para dentro ele mordeu uma das raízes e a fez desaparecer nas chamas.
—parece que ele aceitou, proteger todos aqui.
Liof sorriu.
—O que faremos agora?
—Vamos a outras aldeias e cidades e buscar aliados. Precisamos de pessoas. A luta contra os soldados escarlates e seu senhor.
Sten assentiu com a cabeça, Marian mantinha uma dúvida no semblante e Loreah tinha chamas no olhar, não tão controladas quanto as do cervo.
Os moradores do local ainda não tinham se acostuma do a ver o protetor, houve gritarias e medo mas a líder logo convenceu a todos que o animal era um grande amigo e que protegeria todos.

—Liof, se eu for nessa jornada em busca da mudança. Como ficara meu povo?
—Eles ficaram a salvo, quando nos guardiões chegamos aqui o protetor nos manteve a salvos.
—Você era um guardião?
—Eu ainda sou, diria que o último dos fundadores da ordem.
Ela se espantou
—Mas você teria que ter vivido por – as palavras morreram na boca dela e em um lugar da sua mente ela tinha a impressão que ainda existia algo louco dentro dele.
—Eu também não entendo isso porém eu sei que é assim.
Ele passou segurança na sua voz e isso fez com que ela também acreditasse que todos estavam protegidos com aquele animal ali.A noite se foi com o Guardião, contando para todos as historias que o próprio Sten havia escutado alguns dias atrás.

Três dias se passaram e os preparativos para o novo caminho foram feitos. Marian deixou a cargo de Aruan cuidar de todos. Ele foi o escolhido por sua inteligencia, disposição e benevolência. Tudo que Marian admirava em uma pessoa. Sten sentiu uma pontada no peito ao ver a mulher despedir do soldado em um abraço afetuoso

—O que há Sten? Alguém está surrupiando seu lugar? —debochou a ladina

A provocação pesou em seu coração mas ele manteve o silêncio e foi amarrar as bolsas com os mantimentos para a viagem. Quando Marian chegou perto os olhos dele ainda ardia de ciúme. Ela não percebeu.

Os quatro se dirigiram a passagem que agora estava livre da pedra azul que a tampava. Começaram sua caminhada em busca de aliados. Liof queria entender o passado, Sten queria entender a justiça, Marian queria a paz do seu povo e Loreah a vingança tanto sonhada, os sentimento distinto mas todos em busca de um mundo novo.

—após ver um cervo composto de fogo, nada mais me surpreende.


Loreah quis quebrar o silêncio, ela tinha certeza que as coisas estranhas estavam apenas começando a aparecer

sábado, 22 de agosto de 2015

A morada dos Guardiões - Um começo e Anilea

Liof e Sten terminaram de escalar o paredão da cachoeira assim que os primeiros raios de sol brotaram, encontraram Loreah atenta a cada movimento. Reconhecendo os dois ela abaixou sua adaga.
—Agradável e oportuno é a presença de vocês pois dormimos aqui essa noite por persistência de Marian. Eu teria enveredado pela floresta e encontraria uma forma melhor de nos alimentar do que com o resto dos grãos e frutos.

Liof olhou curioso, algo nos cabelos loiros e nas sobrancelhas arqueadas da ladina o entretinham. Era como uma comichão na mente, que faz você querer escutar de novo uma charada ou desafio.
—Ainda bem que não fez isso, essa floresta é protegida. Por um dos seres mais bonitos que pude ver de perto e o mais perigoso — pelo menos era assim que ele se lembrava, algo em sua cabeça o fazia esquecer dois encontros, duas peças que faltavam em toda aquela história: o monstro vermelho e o senhor do castelo branco — existe um abrigo capaz de suporta dez vezes o número de pessoas que temos aqui mas precisamos da aprovação do protetor.

—O que estamos fazendo aqui então? Vamos logo.

Sten avançou pelo acampamento, acampamento seria um elogio para o que ele via, algumas tendas baixas e furadas, muitos dos panos servindo apenas de forro para o chão. Seus olhos então encontraram quem ele queria encontrar, Marian conversava com uma menina pequenina. Ele não escutava voz da moça a um tempo e ela pareceu a melodia mais limpa e pura que escutara. O frio aumentou dentro de sua barriga. Quando os olhos dela encontram-se com os deles foi como uma faísca vindo do atrito entre duas pedras, algo bem rudimentar e como a primeira tentativa de acender uma fogueira a chama se desfez no ar. O sorriso permaneceu.
—Achei que você não viria mais. - o tom brincalhão pegou o rapaz de surpresa.
—Eu te falei que era só esperar.- ele não soube manter o ar tão leve
—Porque vocês não chegaram com a Loreah?
—Ela não te disse?
—Não, ela evita ao máximo falar de você.
—Estava ajudando o meu mestre, e juntamos alguns recursos—ele deu um tapa leve na bolsa feita de folhas e cipós
—O que tem ai?
—Algumas folhas, sementes e seiva. Coisas que o meu mestre pediu para nos ajudar com a nossa caminhada. Ele me disse que dentro dessa floresta, existe o velho abrigo dos Guardiões.
Marian se animou, sempre escutou de seu pai que os guardiões eram os maiores guerreiros de todas as aldeias e que ao final das guerras os soldados escarlates deram terras para algum deles.
—O que estamos esperando? — disse ela assombra da culpa havia deixado seus ombros.
Ele queria prolongar um pouco mais a conversa mas não arranjou o como e foi sucinto.
—Então vamos!
Enquanto Sten foi pedir pra Liof guiar a todos, Marian avisava a todas as pessoas o que eles fariam. Rapidamente todos se reuniram na entrada da floresta e o Guardião pediu para que todos dessem as mãos que ele guiaria e que independente do que vissem não soltassem as mãos ou corressem. Ele entrou encontrando a escuridão e as luzes das raízes e folhas brilhando mais fracas do que ele se lembrava, Sten era o segundo na fila olhava impressionado pela beleza dos desenhos das árvores. Eles andavam com calma em pouco tempo estavam na entrada do local. O sol adentrava a planície por frestas específicas fazendo ele se espargir e iluminar o necessário para que todos enxergassem o local e soubessem que era dia. Havia escudos, armas e armaduras. Terminaram de entrar a se abrigarem, o local era aquecido, a abóboda feita de raízes e galhos criava contraste interessante com o céu nas frestas. Liof se conservava na entrada, vendo todos esperançosos com a nova casa. Ele se lembrou do outro momento. A última vez que tinha visto aquele local. Um frio subiu por sua espinha, ele lembrou que existia um perigo maior. Lembrou-se da promessa.
—Liberdade é tudo que queremos – ele escutou sua voz de eras atrás dizendo isso.
—O que você está falando Liof – Sten surpreendeu o homem agora não tão magro.
—Nada — seu pensamento vagou por segundos em silêncio e fisgou o que queria—Venha comigo.

Eles andaram, os pés de Liof sabiam aonde ir, eles voltaram para a luz fraca das raízes e árvores. Seguiram por muito tempo ou pouco nenhum dos dois saberia, a escuridão curiosamente deixa o tempo indistinguível. Chegaram à abertura que daria para as costas do esqueleto, um dos vales antigos. Uma pedra de proporções enormes bloqueava a única passagem para aquele local, a pedra era de um azul nunca visto pelos olhos do rapaz. Uma linha delimitava uma sombra estranha dentro da pedra que era translúcida em certas partes e negra em outras. O azul da noite de lua cheia e o verde da folha mais clara se misturavam em equilíbrio ali.

—Para onde foram o protetor e os animais? —O guardião refletia consigo.
—Raramente em florestas vivas como essa existem animais, foi o que você me disse a tempos atrás.
A sobrancelha de Liof mostrava seu total desconhecimento da lição aplicada ao menino.
—O que mais eu te falei?
—Falou que as que possuem, tem animais fantásticos, você me mostrou na parte normal da floresta os animais raros que havia ali. Os lobos de olhos diferentes, que caçavam de formas diferentes.
—É verdade, agora me lembro um pouco. Lembro do seu silêncio.
—Sim, você ensinou que ouvir é mais precioso que falar.
—Algo me diz que precisamos destruir essa pedra, ela não pode ser destruída por nossas ferramentas, como faremos então? —O lampejo dos pergaminhos passaram pela mente do velho
—Temos os escritos.

Eles retornaram ao acampamento, acharam os pergaminhos mas eram muitos. Duas sacolas cheias, alguns estavam manchados, outros queimados, mas a grande maioria estava intocada.
O dia já se findava, a noite impossibilitava a leitura. Decidiram descansar nas relvas verdes da planície no subsolo da floresta. Os cabelos brancos do homem sentado balançavam. Ele respirava profundamente e inspirava de mesma forma, deixando o ar dançar em seus pulmões. O tempo havia passado e ele não havia esquecido a sensação da concentração no simples ato de respirar. Muitos dormiam, mas conservavam-se acordados, os únicos quatro que sabiam que aquilo ali não era o fim da jornada. Loreah se remexia deitada pensando no motivo da destruição de sua terra natal, por algum motivo aquele local a fazia rever questionamentos antigos. Marian ainda sentia o sentimento de culpa, mas encontrou um descanso no ombro de Sten. O rapaz passa em sua cabeça a jornada até ali e experimentava pela primeira vez o aconchego do formar de um sentimento. As raízes no novo céu iluminavam, a tentativa de acender fogueira foi frustrada pelo ambiente as madeiras não propagavam a faísca e qualquer outro tipo de fogo a floresta rejeitava com um vento providencial. O velho guardião sentia tudo a sua volta, a floresta pedia ajuda. A pedra azul pedia liberdade.

A fresta deixou a luz adentrar de forma amena e acordar com delicadeza a todos, Os pergaminhos começaram a ser lidos. Cartas de Guardiões para suas famílias, mensagens trazidas por pássaros ou por mensageiros. Enquanto os dois procuravam alguma coisa naqueles papéis, Loreah e Marian ajudavam a todos a conseguirem a realização das tarefas que sustentariam, o rio que passava por ali auxiliava na facilidade de se plantar algo. O solo era fértil.

Sten encontrou uma carta de seu mestre, essa não era primeira que ele lia do mestre afinal foi na floresta-sem-luz que ele aprendeu a ler.

“Minha amada, aqui os dias passam e nossa missão esta indo bem.
A convivência com os sábios e exploradores é uma forma divertida de se aprender coisas, aprendi outro dia a identificar plantas venenosas e como deixar uma trilha para amigos. Ant'jur continua meu treinamento como havia comentado com você. Estou melhor no arco!

Como esta nossa pequena? Já andou?
Estou contando os sois para poder encontrar com vocês e contar pessoalmente as maravilhas que existem aqui. Falar também dos amigos inusitados que eu encontrei.

Com todo amor.

Seu Liof.”

Sten não viu quando seu mestre havia se aproximado, ele tinha lido tudo aquilo. As lágrimas nos olhos do guardião provocavam a tristeza no rapaz. Liof carregava um pergaminho um pouco amarelado na mão. Ele não conseguiu continuar a ficar de pé e sentou-se. A tarde se foi embora. O antigo deitou-se tentando acalmar seus sentimentos e lembrança, tudo era confuso, tudo ressoa mais forte em uma cabeça fragmentada. A tarde se encontrava no fim e a imagem que Loreah viu de longe foi a do aprendiz como protetor de seu professor.

Assim que Liof adormeceu, Sten abriu o pergaminho que seu mestre havia nas mãos. Entendeu metade, pois possuía alguns caracteres que ele não conseguiu ler direito.

No pergaminho tinha escrito: “Anilea, pedra de cor azul. Que não pode ser quebrada de nenhuma outra forma a não ser o aquecimento.”


Como fazer aquecimento com árvores que possuem troco e folhas que não aceitam o fogo?
— Eu sei um jeito!
Marian surpreendeu o rapaz.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O roubo - Loreah

Loreah era uma jovem de cabelos dourados, olhos azuis, sua sobrancelha fazia uma curva incomum sempre a deixando com a expressão de surpresa e olhando assim superficialmente você seria facilmente ludibriado. Quando ela completou sua décima segunda primavera, sua aldeia foi atacada pelos cavaleiros escarlates, ela e sua mãe conseguiram escapar, mas não sem sofrer danos, sua mãe foi ferida gravemente na perna e ela sofreu um corte profundo em seu ombro. A mata foi abrigo durante duas primaveras, a ferida na perna da mãe ficou mal curada causando grandes problemas na locomoção delas e depois de duas primaveras trouxe a dor da perda para Loreah. Ela foi embora da floresta onde enterrara sua mãe carregando a certeza de sobreviveria como seu pai lhe ensinou, encontrou uma caverna em um paredão e daquele paredão conseguia ver Falligan.

Ela entrou em sua caverna, com a roupa do guarda que matara. Não havia outra luz a não ser a do sol que penetrava pela entrada da caverna, iluminava a perna de um homem que estava sentado.
– Sou grata pela informação da troca da guarda, foi bem útil. Tem ficado cada vez mais difícil surrupiar cristais dos próprios guardas escarlates, vou ter que mudar minha tática.
Um sorriso brotou no canto da boca da mulher. O homem esticou o rosto, era Ruflo o antigo líder da aldeia, fora expulso a duas estações. A luz enfim encontrou as correntes que prendiam as mãos, pescoço e pé.
– Agora então você poderia me libertar. - o tom de esperança em sua voz fez o sorriso dela abrir um pouco mais
– Tu terias me libertado se eu estivesse desprevenida aquele dia na floresta?
– Aquilo foi uma idiotice minha, eu estava aborrecido com minha expulsão. Sem recurso, sem moradia, encontrar uma mulher- as mãos dela seguraram a adaga com força - com uma bolsa de cristais a mostra e assando um porco-do-mato era praticamente um golpe de sorte.
No terminar da frase, ela encostou a ponta da faca no pescoço do homem que arregalou os olhos e sentiu a pele rompendo superficialmente, ele fez uma careta. Loreah parou de pressionar quando um risco vermelho derramou uma gota.
– Espero que seja mais cauteloso com suas palavras. Uma coisa que aprendi com minha amada mãe, nunca subestime alguém que caçou um porco-do-mato.
Uma lágrima brotou nos olhos do homem, ele suplicou.
– Por favor, você já conseguiu o que queria de mim. Liberte-me e nunca mais ouvirá falar de mim.
– Há outras formas de nunca mais ouvir sobre você.
Ele chorou, em pouco mais de alguns segundos de pranto ele viu algo seguir velozmente na direção do seu rosto, que já estava com algumas marcas roxas e cortes, com um soco ela o fez silenciar. Ela odiava ver um homem chorando, mesmo que fosse um tão asqueroso como aquele.

Passou-se dois dias e ela estava esperando o quinto para ir trocar os cristais por um pouco de comida, alguns metais e roupas. Quanto a Ruflo nesses dois dias ela deu um jeito de soltá-lo sangrando depois da árvore vermelha, ele implorou, mas sobre a mira do arco dela ele foi obrigado a correr até ser engolido pela vegetação. Ela voltou aliviada para aquilo que chamava de casa.
Estava pensando como conseguiria carregar seus mantimentos, talvez precisa-se de uma roupa mais surrada, feita de saco de linho e um capuz pra cobrir o rosto. Bom que os cavaleiros escarlates não se preocupavam com a aparência das pessoas, só se importavam com os cristais vermelhos, pensou ela. Escutou então um farfalhar nas matas abaixo de sua caverna.

Pegou seu arco, o punhal guardou em um movimento fluido em sua cintura e cobriu os cabelos com o capuz cor de lama, ia saindo da caverna quando seu sentido apitou, estava esquecendo os cristais. Pegou os cristais, se escondeu atrás de uma curva feita na rocha pelo tempo, observando com apenas um olho.

Dois homens alcançaram a entrada de sua caverna, um rapaz de tez morena e um velho de cabelos brancos.

“ Já é a segunda vez que aquele homem pode atrapalhar minha vida, eu também gostaria muito de atacar os cavaleiros escarlates, mas eu prefiro sobreviver. Só o deixei vivo porque simpatizei com a vontade dele, mais um erro pra minha conta “

entraram na caverna para vasculhar, escondeu a bolsa com os cristais, encostou-se ao paredão, armou a flecha no arco e segurou mais duas flechas na mão e foi se aproximando da entrada da caverna. A voz de Liof começara a ficar audível
– Essa deveria ser a toca do ladrão, ladrãozinho.

Loreah odiava a palavra ladrão/ladra preferia ladino/ladina, gatuna ou qualquer outra com um pouco mais de classe, ela já estava na beira do da caverna quando a conversa dos dois se extinguiu. O milésimo de segundo que ela levou pra decidir se apenas apareceria um pouco já atirando, ou se saltaria e acertaria um dos dois foi o erro, uma mão magra mas forte a segurou pela garganta a outra pela roupa na cintura e foi arremessada pra dentro da caverna, fazendo seu capuz e arco caírem.
– Uma mulher!? -exclamou Sten.– Por isso a confusão criada na minha cabeça– O que falais? Por que me acusam de ser uma gatuna?- Sentiu um alivio pronunciando a ultima palavra.– É verdade, sem provas, sem acusação. Perdoe-me senhorita, o que fazes morando em uma caverna?
Ela se ajeitou, tornou a colocar o capuz na cabeça, O rapaz de cabelos pretos não relaxou como Liof. Dava pra ver a raiva estampada nos seus olhos. Ele tinha certeza de que era ela, seus instintos diziam isso claramente.
– O agradável local onde morei foi destruído pelos cavaleiros escarlates. Passei a vagar então procurando formas de sobreviver e essa caverna foi um alento em meio a tanta desventura.
A fala dela era como um abraço, desses que esquenta o coração e te deixa feliz, o velho de cabelos grisalhos foi persuadido com facilidade, a forma de falar dela só deixou Sten mais tenso, ele serrou os punhos e rilhou os dentes.
“ Não acredito que um deles não esteja caindo na minha lábia. Tenho que fazer alguma coisa ou posso acabar prisioneira ou morta”
– ...Você gostaria de ir com a gente para a aldeia aqui perto, todos lá são bem receptivo.– Não, prefiro viver sozinha. Agora por favor, deixem minha casa.
Ela estendeu a mão a Liof, ele segurou e fez uma mesura encostando o dorso da mão dela em sua testa, isso era um sinal de respeito. Ela fez um movimento rápido, segurou no pescoço do homem velho, chutou o rapaz no rosto, Sten rolou e pegou o arco que ela havia deixado cair quando foi arremessada no chão. Ela protegia seu corpo com o velho, que estava muito encurvado já que ela era mais baixa que ele. Ela colocou a mão na cintura caçando a adaga e não encontrou
– Você esta procurando isso?- Liof mostrou a adaga que reluziu no pouco de luz que havia na caverna.
Ela se assustou, os olhos dela se moveram rapidamente de um lado para o outro então deu uma rasteira nele, Sten deixou a flecha voar. Ele não tinha prática com o arco e flecha, a flecha acertou na parede lateral da caverna ela arrancou a adaga da mão de Liof e pulou pra cima do rapaz. Ela era pequena, frágil, mas bem resolvida quanto a suas atitudes, ela tinha na mente que não cometeria o mesmo erro duas vezes, deixar aquele homem vivo. Ele segurou com força o braço dela, ela deixou o corpo cair sobre o braço, ele viu que o seu braço cederia. Lembrou-se do lobo-olho-azul e por alguns segundos observou com calma a situação, ele aproveitou o peso e a empurrou para o lado, quando ele se levantou ela já estava preparada novamente para o ataque, Liof estava observando sentado com as pernas cruzadas. Ela avançou, a adaga assobiou no ar quando tentou fazer um corte no rosto do rapaz, ele deu uma joelhada no braço dela a mão firme não deixou a adaga escapar, ela acertou um soco barulhento com a outra mão no tronco dele. Ele sentiu a dor e reagiu direcionando o punho ao rosto da ladina, ela aproveitou sua estatura passou por de baixo do braço, fazendo o ataque dele falhar. Cravou a adaga nas costas, então observou Liof se levantando. Ela pegou o arco e uma flecha perto da entrada e atirou contra o homem dos cabelos grisalhos.

“Não preciso mais ficar aqui. Vou arrumar outro lugar e trocar os cristais”

Ela saiu, sumindo na noite que começava. Liof segurava a flecha disparada na mão, andou até Sten, tirou a adaga que foi fincada embaixo da costela. A dor inundou o corpo do rapaz de cabelos pretos, a visão começou a embaçar.
– Mestre... que bom te ver, onde estamos?
Liof pegou a faca e cheirou, havia algo além do sangue.
– Ela deve ter ido a floresta-sem-luz e molhado a adaga em um salgueiro bravos. sua seiva causa visões e é venenosa, muito venenosa.- Pensou ele em voz alta - Pra achar a limpa-corpo, teria que correr até a floresta, não temos tempo - repetiu essas três palavras muitas vezes, andou de um lado para o outro batendo as mãos na cabeça então chorou. Respirou fundo, para se acalmar. O rapaz começou a ter espasmos, a se contorcer. Liof pegou um pouco de água em um cantil jogou no rosto e então encostou sua mão na ferida causada pela faca. O calor emanou de suas mãos, adentrou a ferida e queimou. Sten gritou, sentia como se suas veias estivessem pegando fogo. Uma luz vermelha emanou da ferida que se fechava, então ele estava curado.
– Vai começar tudo de novo. - disse chorando o velho.

Dentro do castelo branco, no alto da montanha a raiva do seu dono cresceu. Ele foi surpreendido novamente e isso para ele era terrivelmente incomodo, ele não era de cometer erros. Nos postos dos soldados de armaduras vermelhas todos rilharam os dentes e fecharam os punhos. Os gigantes teriam que andar sobre Nyrra mais uma vez.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O roubo - O soldado Ambíguo e os cristais vermelhos

-Dizem que o sentinela é capaz de ver do outro lado do mundo, que escuta seu nome a quilômetros e que por isso seu nome foi esquecido e agora é chamado simplesmente de O sentinela.
Terminava de falar Arl o homem mais velho da cidade.

Sten estava com seus olhos vidrados no homem, escutara poucas histórias da boca de Liof e talvez por isso começou a acreditar em tudo que o velho havia contado. Estavam todos sentados na antiga taberna de Uan, havia crianças sentadas no chão em volta do ancião. Aquela era a noite das lendas, onde o povo se dispunha a sentar e recontar as antigas aventuras, desde a saída de Ruflo da cidade, Marian tinha voltado com essa tradição e todos gostavam de escutar, ela olhava tudo com os olhos brilhantes como se transbordasse lembranças.

-Marian, como esse sentinela pode ter tanto poder assim?
-Você nunca tinha escutado essas histórias?
-Não mas devem ser de grande valia, Liof sempre me ensinava muitas coisas sem precisar falar e quando falava me dava coisas para pensar, algumas eu penso até hoje.
-Essas histórias, são – ela pensou muito antes de continuar – não são completamente verdadeiras, elas tem acréscimos que são dados por pessoas que provavelmente não conheciam muito do que falavam. Como a história que os garotos
criaram sobre você, falando que você é filho de lobos-olhos-negros.
– Eu não sou filho de lobos-olhos-negro, onde tirariam essa ideia? Nem tenho tanto pelo e muito menos os olhos negros.
– A rapidez com que lutou com os guardas da cidade,
para eles é impossível que você fosse uma pessoa nascida de gente, então eles assimilaram você com o animal mais rápido que eles já viram.
–
Eles nunca viram um leopardo-patabranca. - ele abriu um sorriso bem sincero – se bem que ser filho de leopardo-patabranca eu gostaria.
– Meu pai me falava, que das lendas podia se tirar grandes informações. Como essa sobre o sentinela, é fato que os soldados escarlates são insensíveis. Mas não acredito que haja um sentinela com essa capacidade de retirar a mente de um homem do corpo, isso é história pra assustar.
– Quem manda nesses soldados?
– Meu pai falava de homens gigantes que tinham tanta força que todos juravam lealdade só por verem a imponência deles. Eu pessoalmente acredito que seja um homem que resolveu não deixar com que as aldeias se comuniquem e controla o suprimento e produção delas.
– Os soldados escarlates pegam suprimentos da aldeia
– Sim, a cada mudança de estação eles vêm e trocam nossas mercadorias por cristais vermelhos. Que são utilizados nos postos deles para pegarmos outras coisas necessárias foi assim que conseguimos as pedras reforçadas das muralha
s e os equipamentos dos guardas e aqueles adornos da casa do Ruflo que venderei na próxima coleta.
– E as outras aldeias acham isso justo?
– Sabemos que elas existem, ma
s somos proibidos de falar com elas, nem viajar é permitido. Para passar para qualquer aldeia sem passar perto de um posto teria que se aventurar pelas matas ou montanhas. A única coisa que sabemos é que servimos ao dono do castelo branco.
– Isso não soa muito bom, meu Mestre disse que tudo tem que girar em torno de um acordo comum entre povoados.
Marian deu de ombros e seguiu para seu aposento com um pensamento incômodo.
Havia se passadio muitos dias desde que Liof deixara Sten ali, ele aprendeu a se comunicar mais. Aprendia bastante sobre como era viver com mais pessoas, não existiam desafios muito grandes. Ele era o guarda particular de Marian. Ele não utilizava cota de malha, nem elmos de ferro, muito menos lanças de madeira com metal, utilizava sua adaga e um velho machado que causava dores no coração daquela que ele protegia. O dia das pedras vermelhas chegou, as mercadorias estavam separadas em frente ao portão principal, Marian estava contando e recontando tudo. Um bater à porta. Sten subiu na casa, observando a movimentação de todos. Ao abrir da porta um estandarte com o símbolo dos cavaleiros escarlates surgiu. A mente do rapaz se enveredou por caminhos a muito não lembrados, aquele símbolo, aquela armadura. O ódio impregnou seu espírito e como um animal pulou para o telhado mais próximo dos soldados para o ataque, ele não pensou o que isso poderia acarretar para a aldeia, não pensou nas pessoas que morreriam ali caso ele atacasse, não pensava em nada. Ele ansiava pela morte de todos aqueles soldados portadores daquele simbolo. Soou na sua cabeça algo um pouco mais claro:
“
Você não reconhece minha armadura e o símbolo nela”.
Se agachou para atacar um único cavaleiro, o com o elmo vermelho sangue. Um borrão surgiu em sua visão, ele escorregou do telhado de uma casa para a parte mais próxima do muro, fazendo barulho. Mas não tão alto para perturbar muita gente, ficou escorado entre o muro e o beco formando um “v” com o corpo.

O sol já se encontrava em comunhão com o horizonte, apresentando tons de alaranjado no céu. A dor na cabeça o acordara, sentia como se uma cobra-d’água o tivesse jogado contra aquele muro e arrastado ele no chão. As costas reclamavam muito, os músculos da coxa também, ele passou quase meio dia ali. Virou o corpo e saiu ainda zonzo do beco feito da casa do guarda Riuna e o muro. Foi até a casa de Marian, onde a encontrou segurando o ombro enfaixado e chorando. Vendo Sten entra os olhos dela ganharam uma vivacidade incomum.
– AONDE VOCÊ ESTAVA?
– Fui acertado por algo e desmaiei.
– Estou cercada de soldados inúteis e a minha única certeza de proteção era você, agora não posso confiar nisso mais. - a voz dela passou de raiva pra um choro murmurado de revolta, Sten fez o máximo para não ser afetado por aquelas ofensas e pela primeira vez viu a beleza daquela mulher. Um péssimo momento pra enxergar isso.
– Marian me conte o que aconteceu.
– SAIA DAQUI!

O Selvagem saiu dali meio aturdido, pensando em como os olhos dela ganhavam vida ao estar brava, pensando em sua voz aumentando de intensidade conforme a veias de seu pescoço se mostravam. Foi como um novo encontro, como se até ali ele nunca tivera vislumbrado um terço do que era aquela mulher, essa nova forma de ver veio junto com uma tristeza inconfundível por ter ocorrido alguma coisa com Marian e ele não ter ajudado, pensou que poderia estar desacostumado com o sentido de vigília, já que ali não necessitava, se perguntou também se não tinha ficado cego de raiva. A raiva o inflou.
– Você está ficando mole garoto
O rapaz viu sua mente asserenar mais rápido que o vento apagando o pavio de uma vela em noite de vendaval.
– Mestre! Que alegria te ver!
– Alegria! Alegria! Alegria!
Cantou Liof.
– Sinto falta de suas lições. - falou o rapaz um pouco cabisbaixo.
– Lições? Não estou lembrado de nenhuma. – Disse extremamente confuso.
O garoto fez um aceno com a cabeça como se fizesse a mente pegar no tranco, lembrando-se de como era tratar com Liof
– Sobreviver.
– Sobreviva meu garoto, se bem que hoje sua vida poderia ter sido tirada de você.
– Eu sei, estava cego pela raiva.
– Raiva, isso não é útil nem pra proteção. Achei que havia te ensinado isso há muito tempo quando você queria se vingar de uma Lobo-olho-azul.
– Eu me lembro disso, sei que você falou pra aprender a entender ela. Eu não fazia ideia que estava chegando perto dos cinco filhotes dela quando fui catar amoras na árvore no alto da cachoeira.
– A raiva é o apagar do dia sem estrelas para o pensamento. – Deu um riso estranho – Eu não faço ideia de onde li isso.
O garoto viu uma lucidez estranha em seu mestre, Lembrou-se então do foco de sua pergunta.
– O que faz por aqui?
– Estou a três dias pensando se entrava ou se gritava do lado de fora. Quando os cavaleiros escarlates adentraram a aldeia eu me escondi. Quando foram embora, um dos guardas atacou Marian e pegou a bolsa com cristais vermelhos dela, ela segurou o braço do guarda. O elmo do guarda caiu e o guarda a atacou com a faca. Nisso eu já estava perto pra desviar o golpe. Dele ou seria dela… Estou confuso. Desviei o golpe e a faca rasgou o braço de Marian enquanto isso ele, ela!? Correu. E sumiu pelo portão principal. Eu ia corre até ele, mas sem a raiva da agressão consegui entender que atender a garota era mais urgente. Ela ia perder muito sangue até alguém conseguisse saber como costurava aquele ferimento.
A raiva transformou o rosto de Sten em uma careta.
– Já te disse que careta só funciona com rã-amarela.
– Você me viu antes do acontecido?
– Não enxerguei nada dentro dos muros até o ataque da soldada ou seria soldado?
– Então como sabe que eu fui acertado? – ele pensou muito rápido na pergunta – Já sei, você sabe que eu não deixaria que atacassem Marian, então só havia duas opções.
– Morte ou sorte.
– Sorte?
– Sim, se a soldada ou soldado não te matou porque você estava com sorte. O golpe com a faca foi preciso, pensou até na possibilidade de cometer um erro no ataque, mas o erro não impediria do dano ser alto.
– Temos que Descobrir quem foi. Marian não esta brava a toa, deverá fazer falta esse recurso.
– Sim. Não se preocupe tanto, só existem dois lugares para ele fugir. O resto daria morte na certa.
– Amanhã vou caçar esse infeliz!
– Já te falei que raiva não serve nem pra defender. Não servirá para caçar.