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sábado, 2 de janeiro de 2016

Viajando entre mundo - O ciclo das eras

 Meus pés se moviam com velocidade, o solo era úmido em baixo deles era o sinal de que minha aldeia já estava distante. A urgência habitava em meu corpo, eu corria sem saber para onde. Eu era novo e veloz. Quinze anos essa era a minha idade, a mesma idade do maior guerreiro de nossa aldeia. Correndo, eu só pensava em como eu era covarde, com a herança da minha família na mão e fugindo sem a capacidade de ajudar ou proteger enquanto os Orcs de Gurath, o descendente de um mago de nome Kelek, atacavam minha aldeia. Ouvimos os rumores sobre os ataques, não sabíamos por que atacavam. O cansaço tomou conta do meu ser, extinguindo o medo e deixando a decepção.

A visão se turvou um pouco, pontos cinzas piscaram a minha frente. Fitei o arco sem corda em minhas mãos, sua madeira estava frágil e sua cor dourada estava desbotada. Era o talismã da minha família, acreditavam que davam sorte. Lembro de quando pequeno querer colocar uma corda nele e escutar meu pai me chamando atenção e falando que era uma relíquia de mais de quatrocentos anos, dizia que ele iria nos salvar em momentos difíceis. Eu nunca entendia quando seria esse tempo e se até lá não poderíamos utilizá-lo para caçar, se bem que com ele em minhas mãos sentia que ele poderia se quebrar a qualquer momento. Era como se ele suplicasse por algo. A névoa me abraçava, estava em um pântano qualquer. Fiquei estático. Uma gota de suor gelado percorreu minha espinha até sua base, eriçando todos os pelos do meu corpo. Um grito ecoou pelo local. Mais algum morador da minha aldeia teria conseguido escapar, foi o que pensei. Um passo em direção ao grito, um alerta soou. Quando se aproximaram de minha aldeia Gurath fez sua voz encontrar todas as pessoas da minha aldeia, se ele podia fazer isso quais outros tipos de ilusões poderiam criar. Um tilintar chamou minha atenção veio, uma luz em meio a escuridão do pântano vinha de encontro ao meu rosto. Veloz ela se aproximava em forma redonda parecendo palpável, meu reflexo foi mais rápido que meus pensamentos, acertei a bola de energia com o arco sem corda. Ela se dissipou como uma onda, dissipando também a realidade. Meus pés não tocavam mais o chão, tudo se tornou escuros, trevas profundas e eu caia.

Parecia que havia voltado pra lá, segundos antes de meus pés tomarem o impulso os olhos azuis do meu pai arregalados, a pressa que teve em catar o arco antes mesmo de Gurath terminar de falar. “ … Espero que estejam cientes de que sou descendente de Kelec e possuo poderes que somente um mago poderia ter” os cabelos loiros dele balançaram três vezes a minha frente enquanto ele me entregava o artefato e disse apenas com sua voz inesquecível. “Corra filho! Corra Rash!”. Eu corri buscando proteger o arco com minha vida, não sabia porque alguém iria querê-lo, porque atacariam um vilarejo por aquele pedaço de madeira velho. Me sentia frustrado por não conseguir salvar nem isso, a culpa crescia a cada segundo da queda no nada. Eu havia fugido e deixado todos aqueles que amava para trás, para morrer caindo no nada. Se fosse para morrer era mais digno eu ter morrido junto com minha família. O abismo parecia sem fim.

Uma poeira se dissipou de forma irregular no chão, parecia que havia sido acolhido como um bebe por alguma força que desconhecia, quando minhas costas encontraram o chão. O impacto esperado, seria mortal e causou apenas um incomodo. Apoiando sobres minhas mãos me ergui, o local que me encontrava era um pedaço de terra em um lugar onde minha maior imaginação não me levaria, busquei alguma coisa em minha mente. Eu sabia algo sobre aquele local e vinha das lendas contadas por meu pai. Seria algum lugar onde o maior guerreiro de minha linhagem e seus cinco amigos haviam ido? Era como uma farpa em minha mente, incomodava. Logo deixei a lembrança, observava com cautela o relevo, continhas ossos humanos e outros osso me pareciam ser de animais. Costelas gigantescas, coisas que encontraria apenas nas histórias de meu pai. Foi quando meu olhar encontrou o solo e atrás de alguns relevos pude ver, não estava ali sozinho. Outros como eu, estavam desacordado ou levantando. Puxei o ar com vontade para gritar algo e parei bruscamente. Um urro dilacerou meu ouvido, minha mão pressionou o arco. Observei crânios de repteis, enormes e finalmente encontrei alguma pista de onde estava sussurrei:
—Dragões...
Outro urro me fez perde um pouco de equilíbrio nas pernas. O rapaz mais próximo de mim correu na minha direção, seus cabelos negros, olhos transbordando medo, segurava na mão um colar enrolado a pedra de cor branca dava seu brilho, se apoiando em seu pé traseiro ele fez um giro rápido, me colocando como escudo para proteger um perigo desconhecido. Não me importei, São em momentos difíceis se faz necessário ter a coragem pelos outros, mesmo sentindo o medo ribombar em meu peito com o som a invadi-lo. Escutei o urro:

—QUEM OUSA ME PERTURBAR E PROFANAR O CIMITERIO DOS DRAGÕES?

Todos que estavam ali buscavam a origem da voz, ela parecia vir de todos os lugares. Se aproximou uma mulher morena, de olhos cor de mel. Os olhos chamaram minha atenção em baixo do elmo prateado, possuíam a mesma cor do escudo dela. O centro do escudo havia um círculo preto com uma ave pintada com tinta branca. Ela falava com o menino atrás de mim.
—Eremit...
O chão tremeu, outro urro menor porém mais perigoso:
—Levantem-se e protejam esse local aonde encontraram a paz.

Não compreendi o comando até ver ossos se encontrando, soando como um amontoado de madeira oca, se montando. esqueletos de Orcs, humanos, dragões e outras raças quaisquer que foram parar ali se levantavam. Os outros tentavam se aproximarem de nós três, vi um paladino das terras de Stronghearth com a barba cerrada e uma capa azul desaparecer no ar. Um esqueleto atacou a minha esquerda eu desviei, a mulher com o escudo protegeu Eremit do ataque. O arco vibrava, a madeira regenerava, sua cor dourada ganhava vida. Ansiei poder utilizá-lo. Comecei o movimento de retesar a corda, algo dentro de mim me motivava ao movimento, senti sobre os meus dedos o fio fino de energia. Quando ele atingiu seu limite uma flecha dourada de energia pulsava, deixei-a voar de encontro a um Orc-esqueleto tentando atacar pelas costas, uma menina de estatura baixa que utilizava um tacape para esfarelar outro esqueleto. O menino que se escondera atrás de mim, fez sua pedra brilhar com algumas palavras e projetou dela uma ovelha de pano, dessas das quais as meninas da minha aldeia utilizavam para brincar e atingiu um esqueleto de forma pífia. O canto da minha boca desenhou um meio sorriso e continuei a atirar flechas, um rapaz que estava se esquivando dos golpes dos esqueletos de forma primorosa, fez surgir da palma de sua mão um bastão. Ele golpeava com vontade e velocidade, pulava, rolava e defendia. Não percebi quando um esqueleto surgiu a minha esquerda, estava perto demais para um disparo de flecha, coma espada levantada em uma corrida desengonçada ele trombou com um muro invisível. O paladino apareceu retirando seu manto azul e destruindo o esqueleto. Eles não paravam de surgir, minha atenção foi fisgada por asas esqueléticas unida a uma coluna vertebral a se conectar com o crânio reptiliano. Colossal, mesmos juntos estávamos encurralados. Não havia chão ou caverna para escondermos. Um zunido aumentou nossos problemas. Um dragão vivo sobrevoou nossas cabeças e se pôs ao lado do de osso. Ele possuía cinco cabeças. A cabeça do meio baforou fogo.

—Se escondam atrás do meu escudo – a mulher de armadura gritou.
Nos posicionamos, como um grande muro o escudo defendeu a todos. Um chiado alertou o ataque com outra cabeça.
—saiam daqui — Eu gritei.
Um raio ocupou nosso lugar, deixando marcas escutas no chão. Nos dissipamos. Ao tentar reagrupar o dragão de ossos se colocou no meu caminho, do paladino e do acrobata, olhamos para os outros tentando se posicionarem. Minha mente buscava continuamente sobre as histórias de dragões e ao mesmo tempo focava na batalha, disparei em direção ao crânio do dragão-morto ele se afastou um pouco. As cinco cabeças se viraram para mim, esquecendo os outros três. Atacar o esqueleto parecia afetar de alguma forma o dragão de cinco cabeças. A cabeça branca cuspiu gelo em minha direção, congelando todo o terreno corri para longe dos dois que lutavam junto comigo. Eles entenderam que eu tentaria distrair para nos reunirmos. Parecíamos nos importar bastante uns com os outros, mesmo não nos conhecendo anteriormente. Laços de batalha. Enquanto o chão ia congelando e sentia meus pés começando a ficar congelados, senti um tremor. uma rachadura foi criada, a responsável era a menina do tacape. Pulei sobre a fenda e o gelo seguiu em direção ao interior do solo. Rolei, encostei na pedra mais próxima meus pés precisavam descongelar. O dragão-esqueleto se aproveitou e me encurralou. Olhei através de seus ossos, vi o dragão imponente como um Deus. Eu conhecia aquele dragão. Sabia seu nome. Ele olhou com todas as cabeças para os cinco. Pulou então de meus lábios

—Tiamat! Não nos machuque, não sabemos como viemos parar aqui em seu sagrado cemitério.

Ele parecia não me escutar, os cinco estavam acuados em uma pedra. Defendidos apenas pelo escudo dessa vez ele preparava um ataque fatal enquanto o dragão esqueleto batia suas mandíbulas em minha direção, esperava uma ordem de execução.
— Tiamat me escute, Deusa dos dragões!
Uma voz surgiu em cima da pedra a qual eu estava encostado, de vestes verdes, chapéu pontudo, cabelos e barba castanha. O rosto sereno e os olhos ligeiramente brincalhões, surpreendeu a todos ali.
—Eu os trouxe até aqui Tiamat — o dragão esqueleto se deitou e desmontou — Trouxeram alguma das armas criadas pelo cemitério. Vim solicitar também que possamos usá-las uma última vez. Há um mago buscando trazer desequilíbrio para os mundos utilizando a energia das armas. Ele conseguiu o tridente, faltma apenas a maça e a rede. Você sabe o que acontecerá se ele achar o elmo. Ele poderá obter todas as outras de forma fácil. Sozinho não tenho conseguido defender tudo, venho pedir a sua ajuda.

Um portal foi aberto no céu negro, silenciosamente a Deusa se retirou concedendo o pedido. Eu e o homem que possuía um contorno de metal e vidro sobre os olhos andamos até os outros.
—Bela manobra alunos!— Disse empolgado o homem do chapéu verde.
O brilho nos olhos de Emit era evidente, ele questionou.
— Mestre dos magos?
—Sim— Ajeitou no rosto a armação de meta antes apoiada na ponta de seu nariz.
—O que fazemos aqui? — perguntou a mulher com o escudo.
— As suas armas já estavam sem energia para serem utilizadas, afinal estão a mais de quatrocentos anos elas estão paradas. Me acompanhem.
Ele andava em direção ao limite de terra. Íamos atrás olhando uns para os outros, ele então pisou na escuridão. A realidade oscilou e estávamos em frente uma construção enorme. Uma torre. Entramo em uma porta com chifres, subimos algumas escadas. Existiam dois sarcófagos, um com a figura de um chifre e o outro menor com o desenho idêntico ao da pedra do menino de cabelos pretos.
— A jornada de seis jovens que perambularam por todas essas terras buscando como voltarem para casa. Aqui eles decidiram a busca pela liberdade, paz e equilíbrio desse mundo. Abriram mão de suas casas para fazerem a diferença.
—Aqui eles curaram o seu filho — Emit, parecia conhecer bastante sobre tudo aquilo.
O mestre dos magos sorriu.
—Isso mesmo Emit. A muito tempo atrás a história do filho do mestre dos magos seguiu simples e como tudo um dia chegou a seu fim. Não estou aqui apenas para contar sobre o passado. Venho pedir ajuda, pois tudo será escolha de vocês.
—Como faremos para encontrar o elmo?— O paladino se adiantou —Ele é a arma mais importante certo?
—Você prestou atenção. Sim. Por isso vocês irão buscá-lo primeiro. Caso queiram seguir nessa jornada.
— Como chegaremos lá? — quis saber o rapaz de cabelos encaracolados.
— Sigam o que as aparências não mostram.— apontou para uma rachadura surgindo na parede. O sol nascia.
— E quanto aos nossos familiares—eu queria saber o que havia acontecido com minha aldeia e se alguém poderia ter alguma informação era ele. Ele havia sumido—Mestre dos magos? Vocês viram aonde ele foi?
— Não vi não mas sei o que ele faz com as aldeias— o paladino fez uma pausa — torna os prisioneiros e utiliza a mão de obra deles para fazerem trabalhos braçais para eles.
— Para onde vamos?— A mulher com o enorme tacape como se fosse uma pluma perguntou.
— É um tipo de charada, li nas histórias sobre o mestre dos magos fazer isso com os guerreiros. Quando resolvidos encontramos o nosso destino. — Emit falou meio tímido.
— Vamos andar, talvez na estrada tenhamos alguma dica — A mulher de olhos mel sugestionou.

Descemos da torre, observamos o dia crescendo. Enveredamos por uma floresta. Caminhávamos nos conhecendo. Me contaram como aconteceu os ataques a seus lares. Descobri que Cirania era irmã de Emit e o herói de que descendiam carregava o escudo e era rabugento. O paladino era príncipe de Stroghearth, Tinha o nome de Corpotens. A história de sua capa conta que na noite do casamento de uma amiga muito querida do paladino, que deu o nome a cidade, ela entregou a ele a capa falando não precisar mais dela, deu como prova de amizade entre a cidade do paladino e a cidade comandada por ela e pelo marido, que era um arqueiro. Soube também que a aldeia de Denno era andante, ele preferiam se movimentar entre cidades. Se apresentavam sempre, o seu bastão era utilizado como brinco por sua avó sem saber exatamente o que era aquele pedacinho de madeira. A mulher do tacape se chamava Bulm, sua cidade era uma das mais avançadas no quesito magia e o tacape estava em um museu quando ela o resgatou. Ela disse que fazia parte de uma estátua chamada: A criança e seu unicórnio. Escutamos um barulho entre as folhagens um grunhido repetitivo, provavelmente um orc. Corpotens vestiu sua capa e andou em direção ao som.

Voltou e disse que estávamos perto de um acampamento orc, o mestre dos magos nos levou para aquele lugar por algum motivo. Chegamos perto de uma construção em uma pedra, seguíamos um orc de pele verde, capacete com chifres e com correntes nos pés. Haviam três formas de entrar na construção, uma escada subindo para um segundo andar construído na rocha. Nos dividimos, O paladino foi pela escada junto a Denno e Bulm. Não haviam guardas, entramos com certa facilidade. Havia carrinhos de metal, os orcs pareciam alheios a tudo, focados apenas na escavação e em encher os carrinhos. Pareciam buscar coisas além dos minérios, um capataz com um chicote de pele com tom verde, muito mais escuto que os que estavam trabalhando. Grunhiu ordens e estalou o chicote em um daqueles que trabalhava, ele um pouco ferido. Retesei o meu arco, Corpotens apareceu segurando o braço do Orc mais escuro o desacordando com um soco bem aplicado. Bulm bateu no chão com o tacape fazendo todos os ali caírem. Me aproximei do Orc chicoteado e comecei a interrogar ele. Olhando em seu olhos percebi que ele não pertencia aquela raça, havia algo de humano nele. Perguntei aonde encontraríamos Gurath e porque escavavam. Apontou então para um desenho de um elmo, se o mago procurava aquele elmo provavelmente seria o mesmo que perseguíamos. O orc que parecia ser o mais velho daquele local segurou minha mão com delicadeza enquanto os outros nos olhavam ainda receosos, ele me levou até um baú escondido entre pedras de uma parede. Havia o escondido da vista de todos os guardas. Tentou falar algo mas não se fazia compreender. Os guardas pareciam ter sidos retardados pelo terremoto causado pela barbara, era como chamavam o povo que vivia em sua aldeia, bárbaros apesar da magia.

O outro cômodo havia homens-largatos e Orcs supervisionando alguns prisioneiros, eles correram para nos atacar, traziam lanças e chicotes. Denno acertou três com seu bastão, acertei uma flecha nos que apareciam ao fundo, Cirania avançava com seus escudo. Emit conjurou e da pedra saiu uma rajada de água e atordoou a maioria dos guardas, estávamos sintonizados. Peguei um elmo da mão do Orc ancião que tentava me falar algo. Não saia nada além de grunhidos estranhos. Coloquei o elmo em baixo do braço e segui par aperto dos meus amigos, deixando a tristeza dos olhos daquele ser que parecia suplicar algo.

O lugar em que estavam os guardas havia uma mesa no centro com algum tipo de jogo espalhado, nas celas o motivo da súplica. Humanos sendo transmutado em orc ou homens-lagartos. Nos entristecemos, pensávamos em nossas famílias, será que Gurath transformaria nossos parentes também? Aquilo me atormentou. Um dos lagartos se movimentava, ainda atordoado. Pisei sobre o peitoral dele fazendo emitir um som de dor. Retesei o meu arco, deixando o elmo cair no chão. O apontei para o rosto dele. Bulm, a barbara se apoiou no meu ombro. Fitei os seus olhos, e de alguma forma eles emanava perdão. Os soldados ali não eram os culpados. Quem sabe o que o mago havia feito com suas famílias e cidades. Abaixei a guarda, o lagarto pegou o elmo e o lançou com a força que podia. Nas sombras espreitava um dos maiores mensageiros do mal. Uma sombra com asas, totalmente feito de trevas, seus olhos eram brancos e ágeis. Ele pegou o elmo no ar e saiu por uma fresta na pedra, feita para deixar o local iluminado de dia. Minhas sobrancelhas se juntaram, sei quando meus olhos se tornam frios mas a mão de Bulm ainda me mantinha preso aos pensamentos de perdão. Rosnei.
— Aonde fica o local que Gurath se esconde?
Ele conseguia se comunicar.
— Ele não esta ssssse escondendo, essspera por vocêssss na torre corrompida dos cavaleiros celestiais.
Abaixei-me e o desmaiei, não tinha a mesma força que Corpotens. Devo ter dado uns cinco socos.

Nos retiramos daquele local, a torre com sua ponta quebrada era vista com tranquilidade, eles me olhavam diferente depois de minha atitude na caverna. O silêncio foi incomodo para mim, não sei se eles me julgavam ou se era eu a me julgava. Eu me senti pesado, não era pra isso que estava ali. Não poderíamos utilizar das mesmas formas escuras para atingir a paz e o equilíbrio. Nós avançamos por uma ponte de madeira, o vento soprava e balançava.
— Não vamos conseguir — Emit, tremia com o vento batendo em suas roupas pretas com adornos dourados.
— Vamos sim irmão, confie.— Cirania o motivava. O rapaz travou, o vento piorou. A corda da ponte arrebentou.
A queda nos fez encontrar com o paredão, o menino não se segurou direito e caiu. Alguns segundos a menos e ele se encontraria no fundo de um abismo. Meu braço pegou ele em queda segurei com força. Subimos com dificuldade, Emit se mantinha calado. Assustado. A torre abriu seus portões, convidava a todos nós para irmos até lá.
— Vamos mesmo entrar ai?— O medroso manteve suas convicções.
— Por que exita meu pequeno? — O homem de chapéus verde e pontudo, aparecera do nada. — Não tema, vocês estão aqui porque quiseram e o mundo precisa de vocês. Você é capaz meu pequeno.
— Gurath está com o capacete — O paladino sempre era direto.
— Eu sei grande paladino, terão que ter cuidado pois ele é a arma mais poderosa.— Ajeitou o objeto em seu rosto — porém nunca foi utilizado.
— Como ele poderia reunir todas as nossas armas apenas com essa? — Cirania questionou. Perscrutamos oportunidades de informações.
— Ele traz a tona a necessidade de cumprir o seu desejo mais escondido em seu coração.
— Vamos, temos muito trabalho para fazer — Denno estava preocupado, não conseguia se manter parado.
Entramos, escadas espiraladas contornavam uma grande coluna central com o busto, aos poucos identifiquei a escrita a baixo da estátua. “Kelec, O grande mago”. Subimos as escadas.
— Sejam bem-vindo meninos! Espero que tenham trazido meus presentes, pois eu já carrego meu chapéu de aniversario. A escada deu em um salão com exatas seis portas.
— Vamos nos dividir?— Perguntei a todos
— Não devemos fazer isso— disse Bulm.
— Eu não vou sozinho para lugar nenhum— Emit foi resoluto.
— E como vocês encontrarão o seus maiores desejos? — A voz de Gurath novamente.
Uma das portas se abriu e dentro dela meu pai estava amarrado, me olhando com olhos esbugalhados. Dei um passo para frente. Uma parede surgiu entre eu e meus novos amigos, os outros também foram divididos pelas paredes. Uma névoa encobriu a sala, andava em direção a figura de meu progenitor. Ele era afastado de alguma forma, foi pego por uma escada. O meu chão começou a sumir, corri em direção a escada. O que ele queria com aquilo? Segurei o arco com força e mesmo eu caindo ele não conseguiria minha arma. Não corri rápido o suficiente despencando então em direção a outro lugar, puxei a corda do arco e atirei o mais alto que pude. A luz revelou a ilusão, eu já estava no chão de uma sala aonde havia uma caixa de vidro esperado algo ser depositado nela. Andei em direção para avaliar, um burburinho vinha de algum lugar. Abafado como um som de alguém gritando em uma caverna distante. Na outra extremidade da sala um orbe estava coberto por um pano, lilas. Ao retirar o pano vi cada um dos meus companheiros sendo exposto aos seus maiores medos. Não me cabe falar aqui quais eram, acredito que seja particular de cada um. A serpente me tentou.
— Deixe seu arco na caixa que eu posso, livrar eles de todo esse mal.
Cheguei a pensar por um instante, meu orgulho pedia pra não entregar, porém a culpa que carregava de quase ter me tornado tão baixo quanto aqueles que buscavam o mal. Depositei o arco na caixa e a ilusão foi realmente dissipada.

Gurath tinha todas as armas em suas mãos, todos nós escolhemos o lado correto. Previsível.
— Muito obrigado garotos, me pouparam um encontro com Tiamat e agora só faltam duas das armas, no caso depois que utilizar o capacete terei elas aqui.
Ele estava sentado em um trono, que ficava ao fim de uma escada de dezessete degraus.
Dez homens-lagartos apontavam as lanças para nós seis, nunca pensamos em desistir de lutar. Trocamos olhares. Denno correu em direção ao lagarto que tentou estocar, Corpotens e Cirania combinaram em uma investida. Bulm pisou no pé de um dos lagartos. Emit fez o mesmo. Vi uma lança caír. O paladino e a mulher de armadura derrubaram cinco. O rapaz de cabelos encaracolados fazia suas acrobacias confundindo os outros oponentes. Gritei para ele, queria Jogá-lo em direção ao mago Gurath. Ele apoiou seus pés em minhas costas ganhando impulso em direção ao mago. O mago o congelou no ar.
— Tolos, vocês acreditam mesmo que poderiam me atacar sem suas armas...— Ele parou de falar, acertei o seu elmo com uma das lanças que ficaram caídas. Corri em direção ao artefato que despencava em direção ao solo. Rolei. Peguei-o no ar, coloquei ele na cabeça e de todo o meu coração desejei que todos aqueles maltratados por Gurath fossem libertos. O capacete se esfacelou sobre mim. Meu desejo se realizara, os soldados que nos atacavam eram humanos agora. Ele se enfureceu juntou a energia das outras armas em sua mão. Quando ele ia nos obliterar, um portal se abriu no meio do salão e de dentro dele surgiu A Deusa dragão. Ele gaguejou e correu para a parede do trono, atirou a energia criando um rombo na parede. Um ataque de fogo foi feito pelo dragão, Gurath se teleportou deixando todas as armas caírem. Vimos pelos vitrais do teto ele fugir voando montado em um cavalo negro. Tiamat içou voo atrás dele, Quebrando todo o teto enquanto buscávamos nossas armas.
— Não há quem, desrespeite a Deusa dragão— Disse o homem de barba castanha e roupas verdes.
— Mestre dos magos!— Soamos em uníssono. Ele sorriu.
— Agora falta buscarmos apenas duas armas mas por enquanto podemos descansar, porque essa perseguição vai durar dias.

O ciclo se renovava. Eu e meus amigos tentando voltar para o lugar de onde fomos retirados, pelas circunstancias, como nossos ancestrais. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Runei - Os contadores de historia

Liof preparava no caldeirão uma mistura, durante o dia encontrou frutos e sementes que aparentemente eram comestíveis. Se dispôs a esquentá-los.
—Liof porque esta cozinhando essas sementes?
—Simples Marian, qualquer mal sucumbe ao calor.
—Porque você só esta fazendo isso agora?
—Os grãos e frutos anteriores foram retirados de locais conhecidos. Aqui eu não sei como trataram essas coisas
A água borbulhou e um chorume negro começou a se espalhar de tudo que havia dentro. Liof olhou concentradamente, buscava algo nas águas da sopa.
—Envini, gérmen traiçoeiro. Responsável por envenenar o mundo. Responsável por equilibrar os efeitos da limpa-corpo.
Marian esta escutava atentamente, aquele conhecimento vinha de um homem surpreendente, ela via em Liof um segundo pai apesar da relação dele com a farpa mental que ela possuía sobre o assassinato de seu pai. Liof prosseguiu.
—Todo mal, necessita de algo para equilibrar.- ele riu.
—O que foi Liof? —ela queria rir também
_ Lembranças de um amigo!
—Me conte sobre as histórias que conseguir lembrar.
—Vamos buscar mais comida. Quero ver ate aonde as árvores dessa estrada estão contaminadas. No caminho eu te conto.
Eles levantaram e se retiraram.


Em Runei. Os soldados de armadura perolada observavam as pessoas, eles eram implacáveis. Qualquer um que se atrevia a sair da linha que eles traçaram ou furar a fila criada recebia um golpe com o cabo da espada bem-dado.
—Uma vez um grupo de cinco pessoas tentou atacar o rei quando estavam perto de receber o mantimento. Eles foram mortos e nos ficamos sem comida por dois dias.
O menino com o braço machucado falou olhando para a cena da entrega do mantimento.
—Menino vamos lá precisamos saber como funciona tudo aqui.
—Tudo bem vou levar você pra casa da minha vó.
Eles andaram entre o labirinto de casas sujas e com madeiras soltas, um amontoado de madeira e retirando uma delas. A casa se mostrou, o único cômodo tinha muitas cadeiras e uma cama onde estava deitada uma mulher. O rosto da mulher não possuía muito das cicatrizes feitas pelo tempo, o que aparentava sua idade eram as mãos e o cabelo branco.

—Mama! Me permite apresentá-los?— A cordialidade e respeito na voz do garoto gerou o brilho no olhar de ambos. Algo ali fez um sorriso puro pular do rosto de Sten.
—Claro meu amor!— Ela tentou se ajeitar. Suas pernas não respondiam e a força estava apenas na sua presença e não no seu corpo. Eles entraram e se sentaram nas cadeiras mais próximas da cama. Loreah se ajeitou, segurou a mão da mulher e a reverenciou, uma coisa que só se faz com parentes ou com a pessoa mais reconhecida na aldeia onde ela nascera. O coração do rapaz selvagem estava acelerado, uma euforia se instalava. Coisa que não sentia desde o dia em que Liof o desafiou para uma corrida da árvore até a cachoeira. O sorriso não abandonava seu rosto. A aura entorno da mulher era de motivação.

—Certamente vieram para escutar uma das minhas histórias, é o que todos os meninos fazem por aqui.
—Claro que viemos mama!
—O que gostariam de escutar?
Loreah se apressou.
— Poderia nos contar de como o Senhor do castelo começou a dominar todas as terras?
—É claro minha querida.


Liof estava calado a algum tempo quando acertou os nós frouxos nas lembranças e começou:

—Não lembro se já havia te falado mas ouve um problema com os gigantes – Marian o interrompeu.
—Sten me contou sobre os guardiões, porém há algumas coisas que não compreendo. Você teria que ser muito mais velho do que aparenta
—Eu concordo, eu também não entendo. O que mais não entende?
— O que aconteceu depois que o gigante— ela fez uma pausa — você sabe.
Os olhos dele tremeluziram, viajou dentro da mente vendo o rosto sob os destroços e o dia do nascimento de seu filho. Entre a felicidade e a dor ele já estava mentalmente forte para o impacto.
— Sei sim! Eu estava amarrando fatos, agora consigo seguir desse ponto— respirou fundo— O gigante esmagou meu pequeno vilarejo e — a realidade do que acontecera fugiu de sua mente
 — Eu lembro dele morto, decapitado. Porem Ant´jur e o outro sábio que haviam desenvolvido a técnica para vencê-los não estavam comigo. Havia eu coberto do sangue do ser colossal, as ruínas e o orbe cristalino da forma da cabeça de um grande lagarto. Eu havia entendido o que era e ele se assimilava a mim, entramos em uma ressonância estranha. Me sentia — ele buscava uma palavra que explicasse melhor mas não conseguiu — Maior, como se tudo a minha frente fosse simples. Um pensamento me transportou para o lado de Ant'jur. As paredes eram úmidas, ele estava de olhos fechados e quando meu corpo se moldou por completo, ele teve um reflexo. O coração dele acelerou, eu senti, ele também estava ferido gravemente. Quando falei, ele tapou os ouvidos. A caverna ecoou, minha voz não era minha. Algo dizia que era perseguido. Me senti perdido e o orbe se perdeu— Marian o interrompeu.
—Liof não estou entendendo.— os olhos dela estavam fixos na face do guardião.
— Desculpe, comecei a falar sem raciocinar, o importante que você tem que saber é: Encontrei com o sábio escondido, fugimos em direção ao local seguro e no caminho de alguma forma perdi aquele orbe. Depois de um tempo chegamos na floresta onde era a morada dos guardiões, Ant´jur no caminho me contou sobre os dias que passei sumido. Os gigantes atacaram cidades e repreenderam os reinos, dividindo e estavam sobre monitoramento de soldados do rei que nos traiu.

Em Runei. A velhinha deu um sorrisinho.
—Após uma rixa muito grande entre os guardiões, não os primeiros. Aqueles que se opunha aos gigantes, eles tinham o povo ao seu lado até as pessoas cederem aos prêmios dados pelo senhor do castelo. Logo as terras estavam divididas e os postos olhavam tudo. Algumas cidades deram tropas para os cavaleiros escarlates. Que diferente de hoje montavam, sim, em cavalos. Esses foram os passos para ele dominar, primeiro lute. Se não funcionar corrompa-os e guie-os até onde você quiser. Para saber tudo isso vocês devem estar pensando quantas primaveras eu tenho, não mais que vinte e cinco—Loreah abriu a boca, Ela aparentava ter muito mais — sei que pareço muito mais velha, é um tipo de doença. Eu sei tudo isso porque na minha família é a tradição contarmos todas histórias. Minha filha não gosta de história então resolvi chamar todas as crianças para escutar meus contos e saberem que o senhor do palácio alvo é descendente do rei traidor.

—O que é esse rei traidor?
—Não se adiante querida.

Liof e Marian andavam para o acampamento com novos frutos e sementes para verificar se estavam ou não envenenados por Envini
—O ferimento já fazia a vide do meu amigo esvair, fui até o guardião. Ele me atendeu e quis socorrer ele por mim. Ant'jur olhou pra mim e falou
“Valian ainda é uma criança e algo me diz que ela não parará de chorar tão cedo”, as chamas do guardião se expandiram. A partir dessa memória não lembro de nada. O nome do rei era Sersio. Em Runei. A senhora saciava a sede de Loreah.
—Sersio, ele foi o que desencadeou sozinho toda as consequências das histórias antigas. Ele atacou os gigantes— Sten lembrou o nome— Ele traiu todos e montou o domínio. Ele não contava porém que o senhor do grande castelo era poderoso o suficiente para fazê-lo adoecer e dominar seus descendentes.
Um homem determinou o destino de sete reinos porque vislumbrou a cor da ganância e há de chegar o dia em que uma pessoa vai mudar as coisas. Elas não devem permanecer nas mãos de um só. Não é meu filho.
Ela olhou para o menino com o braço enfaixado.