Liof
preparava no caldeirão uma mistura, durante o dia encontrou frutos e
sementes que aparentemente eram comestíveis. Se dispôs a
esquentá-los.
—Liof
porque esta cozinhando essas sementes?
—Simples
Marian, qualquer mal sucumbe ao calor.
—Porque você só esta fazendo isso agora?
—Os
grãos e frutos anteriores foram retirados de locais conhecidos. Aqui
eu não sei como trataram essas coisas
A
água borbulhou e um chorume negro começou a se espalhar de tudo que
havia dentro. Liof olhou concentradamente, buscava algo nas águas da
sopa.
—Envini,
gérmen traiçoeiro. Responsável por envenenar o mundo. Responsável
por equilibrar os efeitos da limpa-corpo.
Marian
esta escutava atentamente, aquele conhecimento vinha de um homem
surpreendente, ela via em Liof um segundo pai apesar da relação
dele com a farpa mental que ela possuía sobre o assassinato de seu
pai. Liof prosseguiu.
—Todo
mal, necessita de algo para equilibrar.- ele riu.
—O
que foi Liof? —ela queria rir também
_
Lembranças de um amigo!
—Me
conte sobre as histórias que conseguir lembrar.
—Vamos
buscar mais comida. Quero ver ate aonde as árvores dessa estrada
estão contaminadas. No caminho eu te conto.
Eles
levantaram e se retiraram.
Em
Runei.
Os soldados de armadura perolada observavam as pessoas, eles eram
implacáveis. Qualquer um que se atrevia a sair da linha que eles
traçaram ou furar a fila criada recebia um golpe com o cabo da
espada bem-dado.
—Uma
vez um grupo de cinco pessoas tentou atacar o rei quando estavam
perto de receber o mantimento. Eles foram mortos e nos ficamos sem
comida por dois dias.
O
menino com o braço machucado falou olhando para a cena da entrega do
mantimento.
—Menino
vamos lá precisamos saber como funciona tudo aqui.
—Tudo
bem vou levar você pra casa da minha vó.
Eles
andaram entre o labirinto de casas sujas e com madeiras soltas, um
amontoado de madeira e retirando uma delas. A casa se mostrou, o
único cômodo tinha muitas cadeiras e uma cama onde estava deitada
uma mulher. O rosto da mulher não possuía muito das cicatrizes
feitas pelo tempo, o que aparentava sua idade eram as mãos e o
cabelo branco.
—Mama! Me permite apresentá-los?— A
cordialidade e respeito na voz do garoto gerou o brilho no olhar de
ambos. Algo ali fez um sorriso puro pular do rosto de Sten.
—Claro
meu amor!— Ela tentou se ajeitar. Suas pernas não respondiam e a
força estava apenas na sua presença e não no seu corpo. Eles
entraram e se sentaram nas cadeiras mais próximas da cama. Loreah se
ajeitou, segurou a mão da mulher e a reverenciou, uma coisa que só
se faz com parentes ou com a pessoa mais reconhecida na aldeia onde
ela nascera. O coração do rapaz selvagem estava acelerado, uma
euforia se instalava. Coisa que não sentia desde o dia em que Liof o
desafiou para uma corrida da árvore até a cachoeira. O sorriso não
abandonava seu rosto. A aura entorno da mulher era de
motivação.
—Certamente vieram para escutar uma das minhas
histórias, é o que todos os meninos fazem por aqui.
—Claro que
viemos mama!
—O que gostariam de escutar?
Loreah se
apressou.
— Poderia nos contar de como o Senhor do castelo
começou a dominar todas as terras?
—É claro minha querida.
Liof
estava calado a algum tempo quando acertou os nós frouxos nas
lembranças e começou:
—Não lembro se já havia te falado mas
ouve um problema com os gigantes – Marian o interrompeu.
—Sten
me contou sobre os guardiões, porém há algumas coisas que não
compreendo. Você teria que ser muito mais velho do que aparenta
—Eu
concordo, eu também não entendo. O que mais não entende?
— O
que aconteceu depois que o gigante— ela fez uma pausa — você
sabe.
Os olhos dele tremeluziram, viajou dentro da mente vendo o
rosto sob os destroços e o dia do nascimento de seu filho. Entre a
felicidade e a dor ele já estava mentalmente forte para o impacto.
—
Sei sim! Eu estava amarrando fatos, agora consigo seguir desse ponto—
respirou fundo— O gigante esmagou meu pequeno vilarejo e — a
realidade do que acontecera fugiu de sua mente
— Eu lembro dele
morto, decapitado. Porem Ant´jur e o outro sábio que haviam
desenvolvido a técnica para vencê-los não estavam comigo. Havia eu
coberto do sangue do ser colossal, as ruínas e o orbe cristalino da
forma da cabeça de um grande lagarto. Eu havia entendido o que era e
ele se assimilava a mim, entramos em uma ressonância estranha. Me
sentia — ele buscava uma palavra que explicasse melhor mas não
conseguiu — Maior, como se tudo a minha frente fosse simples. Um
pensamento me transportou para o lado de Ant'jur. As paredes eram
úmidas, ele estava de olhos fechados e quando meu corpo se moldou
por completo, ele teve um reflexo. O coração dele acelerou, eu
senti, ele também estava ferido gravemente. Quando falei, ele tapou
os ouvidos. A caverna ecoou, minha voz não era minha. Algo dizia que
era perseguido. Me senti perdido e o orbe se perdeu— Marian o
interrompeu.
—Liof
não estou entendendo.— os olhos dela estavam fixos na face do
guardião.
— Desculpe, comecei a falar sem raciocinar, o
importante que você tem que saber é: Encontrei com o sábio
escondido, fugimos em direção ao local seguro e no caminho de
alguma forma perdi aquele orbe. Depois de um tempo chegamos na
floresta onde era a morada dos guardiões, Ant´jur no caminho me
contou sobre os dias que passei sumido. Os gigantes atacaram cidades
e repreenderam os reinos, dividindo e estavam sobre monitoramento de
soldados do rei que nos traiu.
Em Runei. A velhinha deu um
sorrisinho.
—Após uma rixa muito grande entre os guardiões,
não os primeiros. Aqueles que se opunha aos gigantes, eles tinham o
povo ao seu lado até as pessoas cederem aos prêmios dados pelo
senhor do castelo. Logo as terras estavam divididas e os postos
olhavam tudo. Algumas cidades deram tropas para os cavaleiros
escarlates. Que diferente de hoje montavam, sim, em cavalos. Esses
foram os passos para ele dominar, primeiro lute. Se não funcionar
corrompa-os e guie-os até onde você quiser. Para saber tudo isso
vocês devem estar pensando quantas primaveras eu tenho, não mais
que vinte e cinco—Loreah abriu a boca, Ela aparentava ter muito
mais — sei que pareço muito mais velha, é um tipo de doença. Eu
sei tudo isso porque na minha família é a tradição contarmos
todas histórias. Minha filha não gosta de história então resolvi
chamar todas as crianças para escutar meus contos e saberem que o
senhor do palácio alvo é descendente do rei traidor.
—O
que é esse rei traidor?
—Não se adiante querida.
Liof e
Marian andavam para o acampamento com novos frutos e sementes para
verificar se estavam ou não envenenados por Envini
—O
ferimento já fazia a vide do meu amigo esvair, fui até o guardião.
Ele me atendeu e quis socorrer ele por mim. Ant'jur olhou pra mim e
falou “Valian
ainda é uma criança e algo me diz que ela não parará de chorar
tão cedo”,
as chamas do guardião se expandiram. A partir dessa memória não
lembro de nada. O nome do rei era Sersio.
Em
Runei. A senhora saciava a sede de Loreah.
—Sersio, ele foi o
que desencadeou sozinho toda as consequências das histórias
antigas. Ele atacou os gigantes— Sten lembrou o nome— Ele traiu
todos e montou o domínio. Ele não contava porém que o senhor do
grande castelo era poderoso o suficiente para fazê-lo adoecer e
dominar seus descendentes.
Um homem determinou o destino de sete
reinos porque vislumbrou a cor da ganância e há de chegar o dia em
que uma pessoa vai mudar as coisas. Elas não devem permanecer nas
mãos de um só. Não é meu filho.
Ela olhou para o menino com o
braço enfaixado.