Sten olhava para Loreah, assim como um felino olha para alguém que
esta prestes a ameaçar seu espaço. A fogueira que foi feita para
aquecer os feridos sobre a pedra cinza era grande o bastante para
manter todos aquecidos. Já havia se passado dois dias desde o ataque
a aldeia, a comida estava escassa, mas eles não poderiam sair dali
enquanto os ferimentos não estivessem totalmente curados. Depois de
dois dias sem dirigir nenhuma palavra para a ladina, o rapaz chegou
perto dela.
- Gostaria de saber como você foi parar no meio disso
tudo? O que fazia em um lugar que você tinha acabo de roubar e ainda
por cima defendendo?
Loreah manteve seu silêncio como resposta e
aquilo irritou ainda mais o homem de cabelos negros. Ela estava com
trajes improvisados, seu braço estava amarrado ao tronco com uma
trança de cipós feita por ela. Anos na floresta cuidando de sua mãe
e tendo que se virar sozinha, já haviam consolidado nela a
capacidade e adaptabilidade que a mantinha viva. Sten perguntava e
ela respondia sinceramente, ela não havia pensando no porque de se
intrometer naquela situação toda. Foi algo maior que ela, as
tropas, o marchar dos cavaleiros e o ataque sem aviso foi como se ela
revivesse toda a situação de sua aldeia, ela lutou como não podia
na época. Cada vida salva por algum motivo calava fundo dentro
daquele ser. Era como se fossem sua família agora. Ela ainda não
tinha entendido isso, talvez nunca entendesse.
Ele foi checar como
estava o único homem que ainda possuía um ferimento com sangue, ele
estava desacordado. O selvagem abaixou a cabeça vendo que ele estava
morto.
—Vamos todos temos uma grande caminhada até as
cachoeiras.
Eles entraram na
mata, Sten ainda conservava o medo do ataque das raízes. Elas não
atacaram. Suspirou.
—Cuidado, Qualquer
um que se machucar será deixado para trás.
Eles caminhavam
tensos. Cautelosos. Passado um tempo chegaram à clareira. O rapaz
viu a sombra dentro da casa na árvore central da clareira. Tinha
certeza que era seu mestre. Chamou um dos três guardas que restaram.
—Siga nessa
direção — apontou para o lado oposto de onde estava a aldeia —
lá você encontrara a cachoeira, se acomodem. Estarei lá o mais
rápido que puder.
Loreah esticou sua audição. Ela se tinha como
a única capaz de conduzir aquelas pessoas além de Sten, mesmo ela
querendo negar que ele era uma opção.
Todos sumiram na
escuridão da Floresta-sem-luz. Subindo na árvore ele escutava a
respiração controlada. Um homem de cabelos acinzentados, olhava com
dureza para o nada. Liof estava pensando.
—Marian passou por
aqui, eu a indiquei o caminho da cachoeira. Esse era o plano que você
tinha na mente. Não era?
—Sim mestre.
—Apesar de não
ter te falado uma palavra se quer sobre estratégia, sobre tática ou
qualquer outra coisa você absorveu isso de alguma forma.
Sten viu
que Liof estava muito mais velho do que ele se lembrava. Aquele homem
não era mais o louco que ele conhecia.
—Creio que
precisarei de sua ajuda para completar tudo aquilo que tenho que
fazer, afinal não tenho mais a mesmas capacidades físicas.
—Quem
é você?
Sten não reconhecia
aquela pessoa. O homem enfim se encontrou no presente. Olhou
diretamente para os olhos do garoto.
- Eu sou Liof, Um
dos lideres dos guardiões dos sete reinos.
- Guardiões dos sete
reinos?
- Há algum tempo atrás a terra era regida por sete
reinos, cada reino tinha seu rei.
-Rei?
-Assim é como chamavam
os lideres dos reinos. Os reinos viveram em certa harmonia, algumas
poucas vezes vimos confrontos políticos e guerras, mas ocorreram. Um
reino pressionava o outro quando ficavam em desvantagem — Sten
abaixou um pouco o queixo deixando-o solto, sua expressão de dúvida
gerou um breve sorriso no rosto de Liof que prosseguiu — Os lideres
dos reinos tinham um encontro para discutir pendências e isso
ocorria quando a Flor-dourada desabrochava. Uma das coisas que mais
intrigava a todos os lideres era uma construção de cor branca no
alto do monte e era sempre discutido se enviariam soldados para
verificarem o que era aquilo. Eles sempre votavam em não enviarem
então, Sersio o Rei de Arnini quebrou esse trato enviando uma tropa.
Era composta por vinte homens. Depois de muitos dias de caminhada
eles alcançaram o terreno, vasculharam uma forma de entrar naquele
local. Algo dentro da construção se irritou e ao abrir das portas
daquele castelo os soldados foram esmagados por criaturas enormes,
que possuíam características físicas idênticas as nossas.
Sten
olhava com incredulidade para o Liof enquanto ele continuava.
—Um
dia o mais velho dos gigantes foi falar com os reis e pediu que cada
um deles oferecesse um sacrifício. Teriam que mandar o seu maior
soldado para lutar com os gigantes e assim aconteceu. E esses
soldados foram mortos com facilidade e os gigantes voltaram
gargalhando para seu castelo. Os pedidos tinham a mesma frequência
da reunião é como se soubessem que os reis iriam se reunir. —Liof
conservava em seu sentir uma nostalgia contando isso – Essa foi a
história contada por meu pai, Eu nasci e cresci na era dos gigantes.
Os reis se modificavam, mas a servidão aos pedidos dos gigantes não.
Quando me tornei guarda mestre do meu grandioso rei Sternius. O
pedido dos gigantes foi dilacerador ao coração do meu senhor. Cada
um dos reis devia escolher entre o filho ou a própria mulher para
sacrificar e deu o prazo do desabrochar da Flor.
—Por que eles
não combatiam os gigantes?
—Essa ideia não surgia na cabeça
deles por saberem que com o tamanho que tinham seus reinos seriam
destruídos em menos de uma tarde. Pedir para um homem em sã
consciência decidir entre seus amores é pedir para ele buscar uma
alternativa. O dia seguinte os reis se encontraram escondidos,
decidiram buscar uma forma de enfrentar os gigantes. Criarão então
Os Guardiões. Que consistia no grupo composto por sábios, grandes
soldados e Exploradores. Eu me encaixava na segunda categoria.
Viajamos por todos os cantos para descobrir uma forma de derrotar os
gigantes. Encontramos a floresta-sem-luz e descobrimos que aqui era o
lugar para pesquisar sobre as forças magicas. Magia! era como um dos
mais antigos sábios chamava as forças além do nosso entendimento.
Os exploradores eram nossa força de avanço, eles eram valentes o
suficiente para descobrir propriedades em cada uma das coisas. Nós
soldados ensinávamos a todos como se empunhar uma espada e táticas
de batalha. Aprendi com Ant'ju a utilizar apenas minhas mãos como
arma, ele conseguia vencer qualquer guarda mestre, mas se recusava a
ensinar a qualquer um. Por algum motivo ele confiou em mim e me
ensinou. O tempo passou e o dia da entrega do sacrifício se
aproximava e com ele nossa missão estava sem tempo para testes.
Tínhamos descobertos variadas formas com que podíamos tentar atacar
os gigantes, Ant´ju e Ercinio juntaram o pensamento de suas técnicas
e descobriram na pedra rubra a propriedade necessária pra
potencializar a força da descoberta. Faltando quatro sois para o
desabrochar da flor estávamos acampado no alto da montanha do
sacrifício, em uma vila abaixo do castelo branco. O momento havia
chegado e nós através da magia do sangue e da rocha conseguimos
decapitar três dos cinco gigantes, quando algo nos interrompeu. O
sol se enegreceu, os gigantes correram para seu castelo e de alguma
forma o tempo parou, um homem com a armadura escarlate e o símbolo
do castelo atacou os guardiões. Ercinio foi o primeiro a ser
atacado, ele foi esfacelado como uma duna no vento. O terror tomou
conta de todos, assim corremos. Eu só conseguia pensar em Irsa e
minha pequena Lori. Eu corri, mas ele me alcançou, hoje eu me
pergunto se não teria sido melhor ele ter conseguido me matar aquele
dia, eu só escutava a voz da minha amada “Sobreviva meu amor!
Sobreviva pra mim”. Eu pulei na fenda a baixo de meus pés a
montanha me acolheu e algo dentro dela o espantou. O gosto de ferro
surgia na minha boca, a queda foi grande, mas eu sobrevivi. Mancando
dentro da caverna, Descobri o que espantou o monstro, o brilho do
orbe a minha frente era vivo.
- Um orbe?
- Eu fui atacado aqui
depois que encontrei o orbe—ele apontou para sua cabeça – quando
o encostei eu sabia que existia alguém muito maior que os gigantes e
muito mais poderoso que o monstro escarlate. Esse ser estava olhando
diretamente para mim. Escutei ele gritar, praguejar e tentar me
atacar, ele tentava sobrepor meus pensamentos. Ele não conseguia.
Com a velocidade do meu pensamento eu estava na alameda que levava
para minha casa perto do castelo do meu rei. Um dos gigantes que
havia corrido estava ali, Eu me perguntei quanto tempo tinha lutado
mentalmente na caverna. O orbe habitava em minha mão e vi duas mãos
gigantes obliterarem o reino...
As lágrimas interromperam a
história e Sten finalmente entendeu a sanidade por trás dos loucos
olhos do seu mestre. Ele aguardou paciente e compartilhando a
simpatia e tristeza por seu mestre.
-O que temos que fazer senhor
Liof? - Sten se lembrava que a palavra senhor era levada com muita
honra a um Guardião. Liof havia ensinado pra ele a muito tempo atrás
sobre isso.
O olhar determinado do velhote descansou sobre o rosto
do jovem, ele viu a chama vibrante do coração do rapaz e em alguma
coisa lembrou a luz do orbe.
—Temos que lembrar a todos como era
viver em paz e sem as algemas que o sentinela mantém a todos nós.
Primeiro vamos refundar Falligan.
Sten afirmou com a cabeça se
levantou
—Já estamos
parado a tempo suficiente.
Os dois foram junto de encontro aos
grupos de Loreah e de Marian.
O Castelo vibrou. Um
ser com a altura de dois homens medianos dava um tapa no rosto de um
gigante que se encontrava encolhido, segurando os próprios joelhos,
algo de escurou escoou pelo ar.
- Achamos Liof!
Vamos! Acorde aberração!
O gigante abriu os olhos, viu o homem
de olhos negros, corpo revestido da pedra vermelha. O medo se
instalou no gigante. Suas correntes foram soltas.